Edgar Allan Poe, sociólogo

A turma do 2° período de Ciências Sociais da UFRJ foi surpreendida naquela quarta-feira: ao invés de estudar Georg Simmel, como programado na ementa do curso, onde mergulharíamos naquele conteúdo obscuro de sociação e da “vida do espírito”, nos deparamos com um texto projetado à lousa, de autoria de Edgar Allan Poe.

A professora, nova e ainda muito entusiasmada com suas aulas, logo explicou que a proposta do dia seria diferente: leríamos Poe coletivamente, cada um assumindo um parágrafo do conto O Homem da Multidão, de 1840. Leia mais

Contos Essenciais: A rua dos Crocodilos (Bruno Schulz)

A obra de ficção do escritor, professor, tradutor, crítico e hábil artista polonês Bruno Schulz não ganhou destaque por sua extensão (três livros,  sendo que o último, inacabado, perdeu-se durante a Grande Guerra), mas por seu incrível humor patético e paródico; suas descrições poéticas dentro da prosa (ponto sempre levantado por estudiosos do polonês) com toques bem desagradáveis (ratos, baratas, prostitutas); a indeterminação do estilo, cuja classificação transita entre “filosofia da literatura” e realismo fantástico, sem ter recebido até hoje uma definição precisa.

A rua dos crocodilos é o conto mais celebrado de Lojas de Canela, um “romance” que compila 12 contos interligados, e tem como destaque a óptica doméstica e ordinária de uma cidade provinciana e dos personagens Jacob, claramente inspirado no pai do autor, e Adela, uma empregada imponente. Jozéf é filho de Jacob e é através de suas percepções de mundo que é possível visualizar a cidade onde vive e o cotidiano – fantástico, real e sensorial – que permeia os contos.

O conto abre com o narrador encontrando um mapa de seu pai dentro de uma escrivaninha cheia de papéis. O mapa é de um detalhamento preciso, com cores e tipografia extremamente elegantes por todo seu centro – concentrado muito em exaltar as minúcias daquela obra de arte cartográfica -, porém quanto mais longe do centro menos detalhes e menos capricho são encontrados, principalmente ao bater os olhos na Rua dos Crocodilos – que não é exatamente uma rua, mas uma cidade. Ao tentar encontrar detalhes dentro dessa cidade fantasma – quase rascunho do acidente – o jovem narrador depara-se no centro dela.

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Contos Essenciais: Uma rosa para Emily (William Faulkner)

William Faulkner costuma ser mais lembrado por seus romances como O som e a fúria, e por utilizar artíficios técnicos que assustam os leitores mais incautos: seus narradores são capazes de dar vários saltos no tempo em uma mesma página ou entrar em longos fluxos de consciência enquanto ignoram os acontecimentos a sua volta. Mas ele escreveu também dezenas de contos que, embora menos complexos formalmente, permitem que enxerguemos muito mais claramente um outro lado da sua produção – e muito mais fundamental, na minha opinião – que é sua preocupação com as dimensões da vida humana. Seus personagens têm origens comuns, são homens e mulheres do Sul americano, da virada para o século XX, mas a partir deles Faulkner consegue criar exemplos ora nobres, ora trágicos, mas sempre complexos, dos nossos destinos.

Uma rosa para Emily foi publicado em 1930, quando o escritor estava em um de seus melhores momentos – havia publicado O som e a fúria no ano anterior e acabara de escrever, em apenas algumas semanas, Enquanto agonizo – e definitivamente merece uma indicação para o hall dos contos essenciais da literatura. Logo em seu primeiro parágrafo, Faulkner consegue apresentar diversos aspectos da história, de maneira ao mesmo tempo concisa, instigante, bem-humorada e original, a começar pelo fato de que a personagem principal, Miss Emily Grierson, está morta. Leia mais

Contos Essenciais: A Pensão (James Joyce)

Um dos maiores méritos de Dublinenses, e o que ironicamente foi visto como maior defeito à época da publicação, é a visão crua de James Joyce sobre a cidade. Mesmo que você, caro leitor, não seja um entusiasta da história irlandesa, poderá notar os clichês de suas vidas: a devoção católica, o alcoolismo, a educação escolar, o patriotismo efervescente perante a Inglaterra. Ainda que distante do estilo consagrado e ovacionado por todos os seguidores do modernismo, esse livro de contos tem passagens belíssimas e enredos simples que carregam em si muito sobre a vida irlandesa, muito do que Joyce renegava e amaldiçoava, mas que nunca conseguiu se desvencilhar. Leia mais

Contos Essenciais: Um túmulo para Boris Davidovitch (Danilo Kiš)

É comum dividir a literatura em duas partes, bastante distintas e distantes entre si: a ficção e a não-ficção. É claro que muitas vezes a ficção se aproveita de fatos reais. Fatos históricos, via de regra: quantos livros não contam sobre alguma coisa que não-aconteceu-mas-aconteceu em um determinado momento da história, tentando caracterizá-lo com o máximo de verossimilhança possível? Por vezes, também, a não-ficção acaba por incorporar a ficção em alguns momentos: nada mais natural do que mesmo o autor mais meticuloso não consiga reconstruir os eventos à perfeição e crie alguns fatos, deixando que sua imaginação e seu raciocínio lógico preencham os buracos que a pesquisa ou a memória não conseguem suprir.

Alguns autores, porém, dão um passo além na direção da misturar os dois âmbitos, e criam uma terceira coisa, a qual não se pode dizer que é ficção, mas que não se pode acreditar como realidade. Jorge Luís Borges era mestre nisso, como nos mostra sua História Universal da Infâmia. São inúmeras biografias de criminosos, que misturam fato e ficção, chegando a apontar as referências bibliográficas ao fim do livro. Leia mais

Contos Essenciais: Para sempre em cima (David Foster Wallace)

É complicado escolher uma obra específica de um autor conhecido para começar a ler. O receio de ler a magnum opus e se decepcionar por não estar familiarizado com o estilo é enorme no meu caso. Conheci David Foster Wallace depois de ler alguns comentários sobre a sua morte e a quantidade expressiva de escritores que o citavam em entrevistas e ensaios. Comecei pelos ensaios e adorei, fiquei com medo da ficção não me cativar tanto quanto a não-ficção torta de Consider the lobster. Mas é graças ao único livro traduzido para o português, Breves entrevistas com homens hediondos, que me encantei de vez com o autor norte-americano. Esse é um livro de contos com diversas histórias divertidas, desde as que carregam o título até aquele que abre a coletânea com meia página apenas. Porém, não estou aqui para falar novamente sobre o livro por completo, se quiser existem as resenhas da Anica e a minha, quero falar sobre Para sempre em cima, um dos melhores contos que já li. Leia mais

Contos Essenciais: O Nada (Leonid Andreiev)

Dando seguimento aos Contos Essenciais Meia Palavra, resolvi indicar um conto que creio ser pouco conhecido em terras brasileiras – bem como seu autor –, mas que possui tradução e que foi publicado numa coletânea que, salvo exceções poucas, pode ser encontrada por um preço bem acessível. Trata-se do conto O Nada, de autoria de Leonid Andreiev.

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Contos essenciais Meia Palavra: Pruebas irrefutables de vida inteligente en otros planetas (Rodrigo Fresán)

Eis que inauguro uma nova série de posts aqui no Meia Palavra: os contos essenciais. Não acredito que uma explicação muito detalhada acerca disso seja realmente necessária, já que o nome é bastante auto-explicativo. Mas cabem alguns detalhes: mais ou menos uma vez por mês um dos membros da equipe irá escrever sobre um conto que considere essencial. O conto não precisa ser famoso, bom ou ruim, apenas essencial. Na opinião de quem o escolheu, é claro.

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Rodrigo Fresán é um dos mais importantes escritores de língua espanhola da atualidade. O fato de sua obra ser pouco difundida no Brasil se deve, provavelmente, apenas à ausência de traduções: apenas seu Jardins de Kensington foi lançado por aqui, pela editora Conrad. Felizmente o espanhol não é um idioma tão inacessível, sendo que muitos podem lê-lo no original. Leia mais