James Joyce, um ser humano

Acho que, depois dessa semana – em que houve praticamente um intensivo de James Joyce aqui no Meia Palavra – qualquer apresentação a respeito do autor seria desnecessária. Falou-se de praticamente tudo: Dublinenses, Um retrato do artista quando jovem, Ulysses, Finnegans Wake, Música de câmara e até o Pomes Penyeach. Faltou apenas sua única obra para o teatro, Exilados.

Mas para o último post do especial eu resolvi ir por um outro lado. Deixar pra lá o autor Joyce, essa criatura mítica e quase intocável, para focar no James Joyce humano: criatura de carne osso, que sentia dor, fome, frio, medo, alegria e, entre essas e outras coisas, tesão. Quero mostrar que, apesar de tudo, Joyce era gente como a gente e fazia coisas que todo mundo faz – mas ou menos, nem todo mundo é tão livre de tabus quanto ele parecia ser. Para isso eu escolhi e traduzi duas das cartas que ele enviou para sua então companheira (futuramente esposa) Nora Barnacle.

(Não recomendado para menores de 18 anos). Leia mais

Caminhos recorrentes para Finnegans Wake

Levei trinta anos para acreditar que era possível encarar a opus magna de James Joyce, o mais famoso dos livros que ninguém leu: Finnegans Wake, ou, na tradução brasileira, Finnicius Revém. Convenci-me de que é possível enfrentar o gigante de seiscentas e tantas páginas (sendo que cada uma delas, por sua densidade, vale por umas trinta, nivelando por baixo); no entanto, saí da experiência convicto de que, se, por um lado, o confronto é possível, a leitura, por outro, não o é. Pelo menos não uma leitura no sentido tradicional. Ora, vejamos: Leia mais

Yes, nós temos Ulysses

Um lançamento concorrido

Poucas vezes tinha visto um lançamento tão cheio em Curitiba.

O lançamento de Muchacha, de Laerte Coutinho, foi bem concorrido – pudera, uma lenda viva entre nós. O de Muito além do nosso eu, de Miguel Nicolelis, teve uma palestra com esse neurocientista brasileiro do qual devemos nos orgulhar. O de Cachalote, que teve as ilustres presenças dos Daniéis Galera e Pellizzari e dos Rafaéis Coutinho e Grampá, até agora foi o meu lançamento favorito – o mais engraçado foi que eu, para não dar uma de fanboy, resolvi ir ao shopping para acalmar os nervos e… dei de cara justamente com os Daniéis, conversando e andando com Caetano Galindo, que eu só conhecia por causa de uma palestra sobre Finnegans Wake que tinha visto alguns meses antes.

Repito: poucas vezes tinha visto um lançamento tão cheio em Curitiba. O de Ulysses, de James Joyce, era diferente dos citados anteriormente: por ser de um clássico; e por ter como principal atração não o autor da obra (morto, caso você ainda não saiba: por isso ele não pôde estar presente), mas o seu tradutor. Leia mais

Dublinenses (James Joyce)

Não há como negar: existe uma aura de mistério em torno de James Joyce. Seja pela sua fama de complexidade intrincada, seja pelo vulto que suas obras vieram a assumir em relação ao cânone universal, a leitura de quaisquer de seus livros é mediada por toda a sorte de antecedentes, opiniões, medos e expectativas.

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Um retrato do artista quando jovem (James Joyce)

Muito listado entre as principais obras literárias do século XX, Um retrato do artista quando jovem (1916) tem duas traduções brasileiras até o momento, sendo a primeira de José Geraldo Vieira, lançada em 1945, e a segunda de Bernardina da Silveira Pinheiro (que também lançou o segundo Ulysses brasileiro), em 1992. Apesar da popularidade do texto, não comecei a ler James Joyce por esse livro, seu primeiro romance publicado, conhecido pela alta carga de elementos autobiográficos. Minha primeira imagem de Joyce veio do Ulysses (1922), sua obra mais consagrada, porém isso não me fez perder a vontade de ler seus textos anteriores, menos inovadores formalmente. Acabei, então, fazendo o percurso ao contrário: li o Ulysses,em que Stephen Dedalus aparece em sua maturidade, apesar de ainda ser jovem, e só depois li Um retrato…, em que temos o desenvolvimento de Stephen desde criança (talvez pequeno demais para ter memória) até a idade adulta, quando já começa a ser como um artista. Leia mais

Pomes Penyeach (James Joyce)

Assim como Música de câmara (Chamber Music), os Pomes Penyeach (1927) são uma amostra da poesia, o outro lado menos conhecido de James Joyce, famoso por suas obras em prosa. O que temos em seus poemas não está longe do experimentalismo de romances como Ulysses e Finnegans Wake, já que temos nos Pomes Penyeach justamente o contrário: formas até que bem comportadas para sua época, em que aparecia quase que uma nova vanguarda por dia.

Os treze poemas que o compõem têm um caráter simbolista ou ainda romântico, bem próximos da tradição literária inglesa do século XIX. Em algumas passagens temos certos neologismos e algumas construções mais elaboradas linguisticamente, algo que poderia ser chamado de “mais joyciano”, mas nada que seja de fato tão revolucionário. Tardiamente, Joyce relevaria a importância desses seus trabalhos poéticos iniciais, porém o fato é que eles continuam aí para ser lidos (e devem ser lidos). Leia mais

Gatos Empoleirados – Bloomear

Adoro bloomear pelas ruas da pauliceia chuvosa e nebulosa desde os minguados meses de junho e julho de 2009, quando encerrei a leitura de Ulysses. O motivo para começar a me interessar por James Joyce foi Os Infiltrados, de Martin Scorsese. Esse filme de 2006, que rendeu a Scorsese seu primeiro Oscar de Melhor Diretor em 2007, fala sobre o domínio da máfia dos descendentes de irlandeses em Boston – não julguem, só me interessei sobre a União Soviética após assistir Rocky IV. Parece banal, mas quando Jack Nicholson diz “Non serviam.” e o menino Colin – que na versão adulta é interpretado por Matt Damon – responde “James Joyce”, um estalo bizarro me tomou de assalto. Nunca corri atrás do autor, nem sequer me interessei por ele e do nada um interesse é plantado e se desenvolve ao longo de dois anos – primeiro pesquisando sobre a Irlanda e depois sobre o autor em si. Leia mais

Um apanhado de James Joyce

por Caetano Waldrigues Galindo

Dúvida? Então confere aí:

1. Quem é James Joyce?
– O maior escritor depois de Shakespeare.

2. Quem foi que disse?
– Eu. Mais um monte de gente. E até o Bloom, aquele, o Harold, o bardólatra.

3. “Depois” tipo que veio depois ou em segundo lugar?
– Pro Bloom as duas coisas. Pra mim só a primeira. Leia mais

Contos Essenciais: A Pensão (James Joyce)

Um dos maiores méritos de Dublinenses, e o que ironicamente foi visto como maior defeito à época da publicação, é a visão crua de James Joyce sobre a cidade. Mesmo que você, caro leitor, não seja um entusiasta da história irlandesa, poderá notar os clichês de suas vidas: a devoção católica, o alcoolismo, a educação escolar, o patriotismo efervescente perante a Inglaterra. Ainda que distante do estilo consagrado e ovacionado por todos os seguidores do modernismo, esse livro de contos tem passagens belíssimas e enredos simples que carregam em si muito sobre a vida irlandesa, muito do que Joyce renegava e amaldiçoava, mas que nunca conseguiu se desvencilhar. Leia mais

Música de câmara (James Joyce)

O irlandês James Joyce é famoso. Famosíssimo: é costume considerá-lo um dos maiores escritores do século XX; e isso não só em língua inglesa. Diz-se que, sem seu Ulysses a literatura não teria se tornado o que se tornou. E, caso faltasse Ulysses, ainda teríamos o excelente Dublinenses e o experimentalíssimo Finnegan’s Wake.

Existe, porém, uma parte da obra de Joyce que costuma ser relegada a segundo plano. Duas, na verdade: sua única peça teatral, Exiles (lançado por aqui como Exilados), e alguns poucos poemas, presentes em Pommey’s Pennyeach e em Chamber music – lançado no Brasil pela editora Iluminuras, em tradução de Alípio Correia de Franca Neto. Leia mais

A nova tradução do Ulysses de James Joyce

É bem provável que a primeira pergunta da maioria ao saber que em 2012 seria lançada uma nova tradução do Ulysses (1922), de James Joyce (1882-1941), foi: por que traduzir esse catatau mais uma vez? A obra-prima do autor irlandês já foi lançada no Brasil antes, sendo a primeira tradução de 1966, do filólogo Antônio Houaiss, e a segunda de 2005, da professora Bernardina Pinheiro. O lapso temporal, como se percebe, é grande entre as duas edições, o que torna ainda mais surpreendente o fato de, apenas sete anos depois da segunda tradução ser lançada, Caetano W. Galindo lançar uma nova tradução do romance pela Companhia das Letras, no selo Penguin-Companhia.

Antes de qualquer coisa, devo dizer que, por uma série de motivos pessoais, acompanhei nos últimos anos com expectativa o lançamento da tradução de Galindo, até porque ele foi meu professor de várias disciplinas ao longo da graduação. Por isso já adianto que talvez este post tenha sido escrito com certa influência desse fato. Apesar disso, é necessário reafirmar a validade de se lançar essa nova tradução por muitas razões, mas, em minha opinião, uma é essencial: nunca há traduções demais. Leia mais