Poesia e sociabilidades

Muito tem sido dito e escrito nos últimos tempos, especialmente nas pesquisas acadêmicas da área das Ciências Humanas, sobre sociabilidades que se desenvolvem nas frinchas da correlação de forças dominante. Sendo impossível ignorar o caráter capitalista que impera em muitas relações sociais (inclusas aqui as “relações de mercado”, “líquidas”, “de consumo” e afins), não se pode incorrer no erro inverso de pressupor, por essa predominância, que esse caráter impera solitariamente esmagando todas as demais possibilidades de sociabilidade que se coloquem alternativamente a ele. Considerar que existem sistemas de valores e alteridades que não são explicadas por esse caráter e que não são regidas pelas suas “regras” é constatar que, felizmente, o ser humano continua “funcionando” em outras frequências que não somente essa.

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Uma conversa com João Gilberto Noll

Por Thiago Souza de Souza

Fala devagar, a voz muito calma, às vezes respeitando longos silêncios como se esperasse as ideias saírem detrás de uma nuvem escura que lhe atrapalha o pensamento. Olhos fitando o vazio, só encara o interlocutor para ouvir. Cabelos brancos, barba sempre por fazer. Mora sozinho – ou melhor, divide um apartamento no centro de Porto Alegre com os livros. Não à toa, sua literatura é sobre a solidão. Trabalhou com jornalismo, foi revisor de editora e começou a publicar tarde, aos 34 anos. Diz que sempre escreveu a história de um mesmo personagem, um homem errante, que vive aos esbarrões, sempre à procura de algo que não sabe o que é.

João Gilberto Noll é um dos escritores brasileiros mais premiados da atualidade. Já recebeu cinco Jabutis, em 1981, 1994, 1997, 2004 e 2005. Seu gosto pela escrita veio ainda na adolescência, graças à timidez que o fez optar por “aquilo que você faz sozinho, a literatura”. Gaúcho, chegou a morar por mais de 20 anos no Rio de Janeiro, mas voltou para a introspecção de Porto Alegre a fim de fugir daquela cidade muito dispersiva e se dedicar mais à literatura. Nos anos 90, deu cursos de literatura brasileira na Universidade da Califórnia, no campus de Berkeley. Foi escritor residente no King’s College de Londres nos anos 2000, quando escreveu o romance Lorde. Leia mais

As máximas de La Rochefoucauld

A leitura de Reflexões ou Sentenças e máximas morais, de François VI, duque de La Rochefoucauld (1613-1680), chama a atenção por vários motivos, dentre os quais gostaria de destacar um como o eixo de questionamento da presente resenha: que tipo de experiências vivenciou esse sujeito para que viesse a construir uma imagem tão pessimista de homem? Como foi a sua vida, e em que tipo de realidade social ele encontrou o solo histórico que forneceu as condições para o desenvolvimento de uma tal visão a respeito do homem e das coisas?

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“Escrevi ‘Na escuridão, amanhã’ para matar meu pai” – entrevista com Rogério Pereira

Muito antes de publicar seu primeiro livro de ficção, o jornalista e, agora, também escritor, Rogério Pereira, já era um nome conhecido e respeitado no meio literário. Fundou em 2000 o Rascunho, um dos nossos jornais mais importantes e o único especializado em literatura no Brasil.

Diretor da Biblioteca Pública do Estado do Paraná e figura importante na cultura literária brasileira, o gaúcho do interior de Santa Catarina, veio de origem humilde. Filho de pais semianalfabetos, o nosso Dom Quixote brasileiro viu sua vida ser transformada ao descobrir nos livros a possibilidade de um futuro melhor, que o tirasse da situação economicamente desfavorável em que se encontrava.

De motoboy do jornal Gazeta Mercantil, acabou tornando-se jornalista. Chegou a ser chefe de redação do jornal Gazeta do Povo, e foi parar na Espanha, onde fez um mestrado em Literatura. Porém, o grande marco em sua carreira, sem dúvida nenhuma, foi a idealização de seu pequeno-notável projeto, que elenca grandes escritores, jornalistas e críticos literários, chancelando de forma substancial o que grande parte da imprensa tem deixado a desejar no que diz respeito ao conteúdo dos cadernos culturais.

Após se apresentar também como cronista em publicações no site Vida Breve, chegou a vez de Rogério Pereira lançar-se na ficção com a publicação de Na escuridão, amanhã (mencionado pelo jornalista que aqui escreve na lista das melhores leituras de 2013 do Posfácio), um projeto literário de mais de uma década, que chegou finalmente às livrarias no final do último ano, editado pela Cosac Naify.

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Além do bóson de Higgs

Em 2011, quando Batendo à porta do céu foi lançado nos EUA, caso dois físicos se encontrassem por acaso no elevador de um instituto qualquer, sem nada pessoal para compartilhar, haveria uma chance significativa de que o constrangimento fosse quebrado com a pergunta: “E o LHC, hein?”. Em toda a comunidade científica a expectativa era palpável em torno dos resultados do gigantesco acelerador de partículas europeu, que havia passado a operar recentemente dentro de uma nova faixa de energia. Carreiras inteiras – e até algumas teorias – estavam em jogo. O livro de Lisa Randall, renomada física teórica norte-americana, revela esse momento marcante, com clima de Nobel no ar.

O protagonista dessa história, o LHC (Large Hadron Collider) 1, é a maior máquina já construída pelo homem. São 27 quilômetros de circunferência no anel principal, enterrado a mais de 50 metros de profundidade, em que feixes de prótons são acelerados a 99,9999991% da velocidade da luz. São necessários 1232 ímãs cilíndricos com quinze metros de comprimento e trinta toneladas cada para manter a circulação das partículas, que giram 11 mil vezes por segundo. Cada um deles produz um campo magnético mil vezes mais forte que nossos ímãs comuns de geladeira, e deve ser mantido a uma temperatura dois graus Celsius acima do zero absoluto para manter a supercondutividade. São produzidas 1 bilhão de colisões por segundo, processadas automaticamente para isolar aquelas com resultados mais interessantes. Um trabalho brilhante de engenharia e física de ponta que custou módicos 9 bilhões de dólares – ou como Randall destaca: o preço de uma lata de cerveja por europeu por ano durante o período de construção do acelerador.

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  1. Grande Colisor de Hádrons.

Crítica: ‘House of Cards’ – sobre poder e lealdade

[CONTÉM SPOILERS]

Fazia tempo que não ouvia falar de Kevin Spacey. Confesso minha desinformação, se tivesse continuado conectado às séries como costumava ser teria adiantado meu prazer e este texto em pelo menos um ano. Na verdade, já há certo tempo ouço falar de House of Cards, mas foi apenas após a aparição de Kevin no Oscar e sua hilária expressão na famosa selfie da Ellen que decidi assisti-la, preenchendo meu desanimado Carnaval. Pois bem, aqui estou, assistindo House of Cards sem conseguir parar, completamente aficionado por Frank Underwood.

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Medo, reverência, terror e erudição

Entre os nomes que mais se destacam na cenário da historiografia contemporânea certamente poder-se-ia incluir o historiador italiano Carlo Ginzburg. E as razões que justificariam esse destaque estão, boa parte delas, ligadas a sua empreitada mais célebre, O queijo e os vermes, livro no qual ele investiga a vida do moleiro Menocchio através dos registros processuais de seu julgamento pela Santa Inquisição.

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Dia de São Valentim

Ilustração: Bô Brega

Ilustração: Bô Brega

Self Hug

Ana Mohallem

Ana Mohallem

‘The Book of Mormon’ – ácido, certeiro e hilário

Dos criadores de South Park, Trey Parker, Robert Lopez e Matt Stone, chega ao Brasil o elogiado musical da Broadway, vencedor de nove prêmios Tony, em montagem estilo guerrilha da talentosa equipe da UNIRIO, liderada pelo professor Rubens Lima Jr, que há sete anos comanda por lá o projeto Teatro Musicado.

The Book of Mormon acompanha a dupla de missionários Elder Price e Elder Cunningham em trabalho evangelizador pelo nordeste de Uganda, mantendo o mesmo humor cortante a que nos acostumamos com o desenho ao mostrar o choque cultural entre duas civilizações. Além disso, demonstra a madura habilidade dos realizadores em prestar tributo, mesmo que na maioria das vezes em forma de sátira, a clássicos musicais como A noviça rebelde e O Rei Leão (vide a canção Hasa Diga Eebowai, uma versão politicamente incorreta de Hakuna Matata). Leia mais

Bonecas Russas

Ilustração: Bô Brega

Ilustração: Bô Brega

Língua-de-sogra

Ilustração: Ana Mohallem

Ilustração: Ana Mohallem