Gentio é um termo latino utilizado para designar qualquer não-judeu. Idiomas gentios, então, são todos os idiomas que não estão associados diretamente com o povo judeu- ou seja, todos os idiomas do mundo, à exceção do Hebraico, Ídiche e Ladino.

O assimilacionismo é uma corrente de pensamento cultural presente dentro do judaísmo que floresceu durante o século XIX, e que buscava integrar os judeus na sociedade gentia- a religião não deveria ser uma barreira.

Constitui-se, logo, uma literatura judaica assimilacionista cujo sentido é debatido: todo autor de origem judaica produz literatura judaica? Ou apenas aqueles que tenham algum vínculo com a tradição- seja seguindo-a ou questionando-a?

Alguns bons exemplos de autores que podem ser considerados judeus assimilados são Isaac Asimov, Franz Kafka, Bruno Schultz, Isaac Deutscher, Imre Kertész, Phillip Roth, Saul Bellow, entre outros.

Franza Kafka era de origem judia, mas não era religioso em aspecto algum. Culturalmente, no entanto, ele interessava-se por tudo que era judeu e a condição judaica- especialmente a condição dos judeus em sua Praga- permeava seu trabalho.

Do mesmo modo Kertész não se identifica como judeu, mas é identificado: ele descobre o que é judeu apenas ao ser enviado para o campo de concentração por ser judeu e, ainda assim, isso não se torna claro para ele. Mesmo não sendo religioso ele incorpora alguns elementos da religião em sua obra- o exemplo maior sendo o Kaddish- mas em grande parte parece existir certo ressentimento quanto à sua condição de judeu- ressentimento que divide, em alguns momentos, espaço com um orgulho confuso.

Schultz, Roth e Bellow são exemplos da intelectualidade judia. Não renegam suas raízes mas sempre estiveram profundamente imersos na vida gentia, de modo que pouco diz que realmente são judeus. Apesar de tempo e espaço os separarem, além de obras bastante distintas, pode-se perceber que o modo que vivenciam seu judaísmo é semelhante.

Por último, entre os autores que citei, talvez o mais icônico dessa contradição Isaac Deutscher. Jornalista, ensaísta e biógrafo, assim como Schultz, nasceu na Polônia e falava alemão. Quando do seu Bar Mitzvah, era um prodígio no estudo da Torá e da Talmud, logo tornando-se rabino. No entanto ele comeu comida não kosher sobre a tumba de um tzadik (um homem santo) no Yom Kippur: nada lhe aconteceu e ele resolveu, então, tornar-se rabino. Sua definição de judaísmo talvez seja a mais interessante de todas, a do ‘judeu não judeu’:

“Religião? Eu sou ateu. Nacionalismo judeu? Eu sou um internacionalista. E nenhum sentido, portanto, eu sou um Judeu. Eu sou, porém, um Judeu por força de minha solidariedade incondicional para com os perseguidos e exterminados. Eu sou um Judeu porque eu sinto o pulsar da história judaica; porque eu deveria fazer tudo o que posso para assegurar os verdadeiros e não espúrios segurança e auto-respeito dos judeus.”

Muitos outros autores que eu deixei de citar são judeus assimilados. É difícil definir com certeza se o que fazem é ‘literatura judaica’ ou não. É difícil saber se isso importa: talvez apenas no sentido de que são híbridos e, em muitos casos, vivem em mundos dúbios- em que sua origem e o mundo ao seu redor contrastam entre si. Isso, porém, pode ser considerado verdadeiro para todo bom escritor.

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