The melancholy of resistance, de autoria do húngaro László Krasnahorkai, é um livro bastante peculiar. Parece não conseguir decidir-se sobre que lugar ocupar na vasta gama de divisões e classificações da literatura. Parece haver qualquer coisa de um realismo mágico, mas nenhuma das duas partes dessa equação chega a se concretizar. Por vezes parece que se está prestes a entrar em um fluxo de consciência, mas os personagens acabam por ancorar-se demais no mundo externo. Outras vezes, ainda, pode-se pensar numa prosa poética – exceto pela densidade narrativa.

A conclusão, portanto, é a de que é uma obra de imensa complexidade. É, porém, o mínimo exigido, afinal, é um livro que trata do apocalipse. Um apocalipse fotografado em macro, o que deixa seus contornos bem definidos e o plano de fundo um pouco borrado, é verdade, mas ainda assim um terrível e iminente apocalipse.

Tudo acontece em uma pequena cidade do interior da Hungria, sobre a qual quase nada é informado. Não se menciona sequer o nome do lugar – apenas incidentalmente se sabe que fica longe da capital. Isso não impede, porém, que a cidade tome forma e torne-se viva conforme se avança na leitura.

O livro divide-se em três sessões, uma introdução chamada “An emergency”, a parte principal “Werckmeister harmonies” e a conclusão “Sermo sulper sepulchrum”. Cada uma dessas partes divide-se em capítulos, que não são nomeados e são, na verdade, longos parágrafos.

O livro começa com a sra. Plauf, viúva de dois casamentos e mãe do “louco da cidade”, voltando de visitas à parentes. Além de um frio anormal para a época do ano em que estava (era dezembro, o inverno já começara na Hungria, mas ainda não deveria ser tão frio), a sagrada pontualidade dos trens se perdera, e figuras suspeitas – e que lhe causavam desgosto, na verdade – a acompanharam na viagem de volta para casa, além da notícia de que um circo estará na cidade, apresentando o cadáver empalhado da maior baleia do mundo. Assim temos sutis, mas tétricas, indicações de que algo está errado.

Ainda na introdução junta-se a ela a sra. Eszter. Abandonada pelo marido, ela mostra claras tendências fascistas e uma indiferença por tudo e todos, desejando apenas o poder. Ela percebe tão claramente quanto a sra. Plauf que existe algo de errado, mas pretende utilizar isso a seu favor.

Na parte central – e principal – do livro, temos seis capítulos cujo foco narrativo alterna entre Valuska e o sr. Eszter. O primeiro é o dito filho louco da sra. Plauf, carteiro e bêbado, que só se importa com a beleza e transcendência dos corpos celestes, com o movimento dos planetas e o brilho das estrelas. Já o sr. Eszter é o marido da sra. Eszter, que vive sozinho e isolado, outrora um importante músico, desiludiu-se com o mundo e com o fato de a música depender de escalas imperfeitas.

Valuska é um dos poucos contatos que o sr. Eszter ainda mantém com o mundo. É esse lunático inocente quem cozinha e cuida do velho amargo, e é a ele que a esposa abandonada recorre, utilizando de subterfúgios obviamente maliciosos, quando precisa do marido para botar seus planos de dominação em funcionamento.

Tudo, porém, foge dos eixos quando uma entidade misteriosa e demoníaca conhecida apenas como “O Príncipe”, parte da trupe do bizarro circo, leva os estranhos que a sra. Plauf encontrou na sua volta para casa a uma revolta sem objetivos, em que forças destrutivas parecem ser libertas sobre a pequena cidade.

A participação d’O Príncipe, porém, é limitada: a parte um inflamado discurso que Valuska escuta, que lembra o sons que K. ouve ao telefone no começo de O Castelo, de Kafka, misturado a qualquer retórica de ódio, ele só volta a aparecer sendo mencionado de forma vaga.

Escrito em 1989 e matéria-prima para o (excelente) filme Werckmeister Harmonies, do também húngaro Bella Tárr, o livro é ao mesmo tempo bonito e terrível, sendo universal ao falar sobre algo que está não apenas além do bem e do mal, mas também além da ordem e do caos. Um retrato certamente distorcido da realidade do mundo pós-moderno, mas não por isso menos apurado. A leitura é bastante densa, por vezes progride-se com certa dificuldade. Os esforços, porém, são bastante recompensados (as últimas páginas, aliás, são de uma força incrível).