Os Imagistas, uma antologia

em 6 de fevereiro de 2013

Informações

  • Autor: Vários
  • Tradutor: -
  • Editora: Albert and Charles Boni
  • Páginas: 68
  • Ano de Lançamento: 1914
  • Preço Sugerido: Em domínio público

por Matheus “Mavericco”

I.

O livro que resenho não possui tradução para o português; ou, se possui, não é integral. Sendo assim, para facilitar o trabalho de uma gama de leitores, propus, amadoramente (mas com um mínimo de decência), a tradução dos versos citados ao longo do texto. A sequência será: primeiro a tradução; depois o trecho original, em generosos parêntesis.

Agora que já cuidamos das pendências, apertem os cintos.

II.

Para um brevíssimo comentário sobre o Imagismo, temos que se trata de um movimento literário do início do século XX que ia contra o sentimentalismo e a discursividade dos poetas românticos e vitorianos. Prezava pela imagem clara, feita com precisão, sem absolutamente nenhum excesso, rodeio ou palavra supérflua (o que, por sua vez, ia de acordo com a literatura do início do século). Sua antologia literária mais famosa, “Des imagistes, an anthology”, foi publicada em 1914.

É dela que vou falar um pouquinho.

Isto é, “falar”. Entre aspas pois falar sobre o Imagismo acaba por ser uma experiência estranha. Estranha pois, a partir do momento em que é uma arte precisa e não raro concisa, grande parte de seu aproveitamento estético se dá fundamentalmente no leitor. É o leitor que, lendo a imagem metaforizada que o poema encerra, recria sua própria imagem: e é justamente nesse recriar a imagem que reside a qualidade e o desfrute que porventura um leitor pode ter ao ler poesia imagista.

O exemplo mais clássico, e talvez o melhor poema do movimento, é o poema “Numa estação de Metrô [In a Station of Metro]” de Ezra Pound (sem dúvidas o maior poeta do movimento também):

 

            “O surgimento destas faces no meio da multidão;

            Pétalas sob o úmido, galho negro.”

                        [“The apparition of these faces in the crowd;

                        Petals on a wet, black bough.”]

 

Pound disse que o poema inicialmente era composto de trinta linhas. Ficou cerca de seis meses para escrevê-lo. Comparou-o a um haicai, por mais que existam diferenças cruciais entre a poesia imagista e o haicai.

Apesar de não parecer, muito já se foi dito sobre o poema de Pound. Costuma-se dispender uma atenção especiais aos termos “apparition” e “Petals”, mas já se observou também, por exemplo, que o fato do poema ter 14 palavras dispostas 8-6 faz um paralelo com o soneto petrarquiano.

O comentário mais pertinente, no entanto e a meu ver, é aquele que diz que a grande relevância do texto não está no que uma linha expressa ou no que a outra expressa, mas sim no que ambas expressam, mas sim na metáfora que isso repercute na mente do leitor. No caso do poema de Pound, a sensação geral lembra uma sensação de abandono, seja das pétalas “on a wet”, seja dos ramos negros. No poema “Um leque para Sua Aletza [Fan-piece for her Imperial Lord]”, incluso na antologia aqui discutida, temos algo parecido, onde se descreve um leque branco, “claro como a neve na lâmina da grama  [clear as frost on the grass-blade]”, que, apesar de todas as suas virtudes ou características, também está posto de lado, presumivelmente como a dona do leque em relação a seu Senhor.

Já outros poemas possuem uma tessitura que requer uma leitura sinestésica. É o caso de “Ts’ai Chi’h”, do mesmo autor, que diz:

 

            “As pétalas caem da montanha,

            as alaranjadas folhas das rosas,

            Seu ocre na pedra se apoiando.”

                        [“The petals fall in the mountain,

                        the orange coloured rose-leaves,

                        Their ochre clings to the stone.”]

 

III.

O poema de James Joyce, “Eu ouço uma tropa [I hear an army]”, mistura essa característica com a solidão dos dois poemas de Pound anteriormente comentados. Vemos o eu lírico que escuta cavalos, que escuta o grito de guerra dessa tropa ao mesmo tempo que chora em sonho (logo, a contraposição entre o lá fora, escuro mas povoado, com o dentro, escuro e despovoado). Talvez o clima de concisão requerido pelo Imagismo não tenha sido trabalhado em suas potencialidades máximas como o fora nos poemas poundianos; no entanto, o clima obscuro que ronda o poema de Joyce em muito lembra as passagens mais obscuras que Stephen terá de lidar mais tarde no Ulysses.  E, por mais que o poema em si não seja grande coisa, versos como “Fendem o cavalariço dos sonhos, chama cegante, / Ringindo, ringindo sobre o coração como sobre uma bigorna [They cleave the groom of dreams, a blinding flame, / Clanging, clanging upon the heart as upon an anvil]” mostram que Joyce não deixou de ser um poeta acima da média (mas apenas um pouco acima).

Versos belos são também os que abrem o poema de Amy Lowell, “Num jardim [In a Garden]”: “Jorrando sobre a boca de homens empedrados / Para se espraiar sem pressa sob o céu / Em bacias de bordas graníticas [Gushing from the mouths of stone men / To spread at ease under the sky / In granite-lipped basins]”.

Aliás, muitos poemas imagistas da antologia se resumem apenas a versos bons, como seria também o caso das sessões V e VI do poema “Noturno [Nocturne]” de Skipwith Cannéll. Neste, como no poema de Joyce, temos um clima noturno que parece ser bem propício para o advento da poética imagista, dado que o sonho é por si só uma forma de se condensar experiências vividas. A única diferença é que as metáforas que Cannéll desenvolve são mais ricas imageticamente que as de Joyce, como a que encerra o poema: “Pois que sobre minha cabeça o luar / Despenca / Como espada. [For upon my head the moonlight / Fallen / As a sword.]” No entanto, o poema de Joyce sem sombra de dúvidas ganha em significado.

 

IV.

Uma característica de grande preferência dos imagistas era a Grécia. Muitas metáforas que partem dessa cultura foram utilizadas por poetas de peso ao longo do grupo, em especial Hilda Doolittle (H.D.) e Richard Aldington. No caso de H.D., além do fato de ter sido uma excelente tradutora de poesia grega, seu poema mais famoso e um dos mais famosos do movimento (que, como o “Numa estação de metrô” de Pound, não foi publicado na coletânea) mostra uma comunicação próxima com a mitologia greco-romana:

 

            “Girai, águas—

            Girai vossos pinheiros pontudos,

            Respingai vossos grandes pinheiros

            Em vossos rochedos,

            Arremessai vosso verde sobre nós—

            Cobri-nos com vossas piscinas de abetos.”

                        [“Whirl up, sea—

                        Whirl your pointed pines,

                        Splash your great pines

                        On our rocks,

                        Hurl your green over us—

                        Cover us with your pools of fir.”]

 

Oread” é seu nome. Sua construção metafórica (ou de sua metáfora), que beira a catástrofe à ordenação planejada, foi utilizadas de forma consciente e até certo ponto com grande êxito pela poetisa (se considerarmos a súbita revelação do último verso). Os versos que abrem “Hermes dos caminhos [Hermes of the ways]”, por exemplo, possuem uma metáfora que bastaria como um poema imagista perfeitamente realizado: “Quebra a areia pesada, / E os grãos disto / São claros como vinho. [The hard sand breaks, / And the grains of it / Are clear as wine.]” A propósito, “Hermes of the ways” é um dos poucos poemas de clima relativamente árido que podemos encontrar na poesia de H.D. Ou, ao menos, imageticamente áridos, visto que outras comparações aquáticas ao longo do poema povoam o deserto retratado. É o caso, além de “Oread”, de “Hermonax” ou “Acon”.

Richard Aldington também pareceu ter uma preferência pelas metáforas caudalosas. “O Rio [The River]” é apenas um exemplo literal.

Mas o poeta possui coisa mais requintada, como seria o caso de “Argyria”, poema bem realizado de versos bem realizados (“Branca nuvem o branco sol beija em meio ao ar [White cloud the white sun kissed into the air]”), ou poesia com um requinte de ironia que dialogaria com o “Epigrama [Epigram]” de H.D.: é o caso de “Lesbia”, o que não lhe impede de ostentar um dos versos mais graves da coletânea inteira: “Você teve o marfim de minha vida por esculpir. [You had the ivory of my life to carve.]”.

Beleza, tu me machucaste muito [Beauty thou hast hurt me overmuch]”, se comparado a um poema romântico qualquer, mostra bem o funcionamento da poesia Imagista. Além, é claro, de ser um poema realmente sentido.

Mas aquele que ocupa o lugar de poema mais bem acabado de Richard Aldington, e talvez como sua obra-prima, é “Choricos”. Partindo da beleza dos versos iniciais (“As canções antigas / Tristemente passam além da morte [The ancient songs / Pass deathward mournfully]”) que evocam cenas passadas e toda a beleza que a cultura greco-romana incute em seu espírito (o Imagismo não negava a subjetividade), Aldington com uma rara perícia consegue insuflar-lhes vida graças à exatidão de suas metáforas:

 

            “E a canção passa

            Da terra verde

            Que jaz sobre as ondas como folha

            Nas flores do jacinto;”

                        [“And the song pass

                        From the green land

                        Which lies upon the waves as a leaf

                        On the flowers of hyacinth;”]

 

Isso ao mesmo tempo que desemboca numa reflexão sobre a morte (“Que tornamos a ti, / Morte [That we turn to thee, / Death]”) que desaba sobre o eu lírico com força e comovência, até o final: “E a quietude ilimitada / Que vem gentilmente sobre nós [And the ilimitable quietude / Comes gently upon us]”.

V.

Nem todos os autores possuem esses bons momentos. F. S. Flint, por mais que também tenha unido emoção à precisão, tanto em um como em outro perdeu o caminho e não conseguiu se realizar bem como os melhores exemplos até aqui apontados. O poema “Londres, minha belezura [London, my beautiful]” é um exemplo cabal desta afirmação, e mesmo o clima fantasmagórico de “Alucinação [Hallucination]” não possui a mesma tessitura fina do poema de Joyce. Claro que o poeta possui alguns momentos interessantes, como no poema “Imortal?… Não [Imortal?… No]”:

 

            “Na floresta,

            olhando a sombra dum pássaro

            pular de galho em galho na samambaia,

            sou imortal.”

                        [“In a wood,

                        watching the shadow of a bird

                        leap from frond to frond of bracken,

                        I am immortal.”]

 

Onde a metáfora se encaixa bem e intriga o leitor de prontidão, comentário que pode se repetir ao poema “The Swann”: “Nas trevas da arcada flutua o cisne [Into the dark of the arch the swan floats]”. Mas mesmo estes, juntos, não poderiam resistir à comparação com “O murminho da seda é descontínuo [The rustling of the silk is discontinued]” e “Folha molhada que se apoia na borda [A wet leaf that clings to the threshold]”, versos que abrem e fecham o poema “Liu Ch’e” de Ezra Pound com original e inerente concisão e poeticidade.

Os poetas restantes da coletânea são poetas ainda menores. “Poslúdio [Postlude]”, de William Carlos Williams, apesar de vagar entre o desespero e a serenidade, é poesia e poesia imagista ruim; “No pequeno velho mercadinho [In the little old market-place]”, de Ford Madox Hueffer, poderia ter obtido bons resultados se não acatasse à poesia imagista, visto que observamos em algumas partes um excesso contido que, apenas raramente, consegue existir na medida certa.

VI.

Desse modo, o cômputo geral da antologia é o que qualquer leitor do panorama da poesia do século XX já imaginaria: poucos são os poetas que conseguiram se sobressair, não sem espanto os alicerces do movimento (isto é, Aldington, H. D. e Pound, em especial Pound). Seja pelo fato de que a poesia imagista, que requer uma técnica de concisão densamente evocativa, seja pelo fato do próprio talento poético ser de baixa voltagem, a construção de muitos poemas ao longo do livro falha quando o que moveu o poeta a escrever o poema tenha sido, presumivelmente, apenas a necessidade de se aderir a uma corrente em voga, mal que assolou muitos escritores menores no decorrer do século passado.

Sobre o colaborador:  Matheus de Souza Almeida, nascido em Goiânia (Goiás) à 12 de abril de 1992, é um estudante de pré-vestibular que busca na leitura uma forma de engrandecimento pessoal que engrandeça os outros. Morou durante parte de sua infância no município de Campos Verdes (Goiás). Gosta de ler muito, escrever pouco e traduzir amadoramente, mesmo quando a atividade denota apenas ousadia. Publica alguns trabalhos, na verdade quase todos, no site “Recanto das Letras”, sob nome de “Matheus de Souza”.

3 comentários para “Os Imagistas, uma antologia

  1. Bela colaboração! Engrandecendo o site com poesia e excelente análise!
    A surpresa no texto está no final, quando descobrimos a idade do autor. Quase 21 anos – minha idade -, mas ao longo de todo o texto a voz que lia essa análise, na minha cabeça, era de um maduro e erudito homem, em meio a livros, talvez com longas e brancas barbas.
    Parabéns pela qualidade do que nos apresentou. E que continue colaborando conosco sempre que possível!

  2. Author here. Alguns adendos: certos poemas de Pound nessa coletânea são, na verdade, traduções de poetas chineses (dos que citei na resenha, o Fan-piece for her Imperial Lord e o Ts’ai Chi’h). Claro que existe toda uma discussão sobre o quão traduções são essas traduções poundianas (o corpus poundiano vai desde a adaptação à tradução mesmo — e, sinceramente, ele se saiu bem pra caramba em todas as modalidades)… Mas, para passar ao largo disto, fica aqui ao menos a nota.

    O poema de Joyce é também um poema célebre. Mais ou menos célebre. Yeats dizia que Joyce era um dos artistas mais preparados da Irlanda de seu tempo — e dizia também que este seu poema é certamente algo que perdurará. Acho um exagero; mas, considerando a origem do poema e a posição dele na obra de Joyce, é digno de nota. (Isto é: o poema é o último do livro Chamber Music, Música de Câmara, primeira publicação literária de Joyce. É importante tanto por fechar o livro quanto por ser o mais pés-no-chão do livro, mesmo falando de pesadelos e imersões noturnas.)

    E por fim, William Carlos Williams, que, em minha resenha, disse que compareceu na antologia com um poema ruim — tanto poema em-si quanto poema Imagista. Considerando o nome de Williams, importantíssimo poeta modernista norte-americano, especialmente por tudo que pude ler dele, não sei se sustentaria hoje a mesma opinião. Na conjetura da antologia, o poema fica realmente fraco. Mas só aí mesmo.

    E é isso. Ler poesia, comentar poesia é aquela coisa: você está sempre sujeito a mudanças pois o leitor está sempre sujeito a mudanças.

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