Crítica: ‘A Teoria de Tudo’

O físico teórico Stephen Hawking é, possivelmente, o nome científico de maior prestígio da atualidade. A história de sua vida, se ele tivesse enveredado por qualquer outro caminho profissional a que nós, simples mortais, servimos nessa vida, já seria de grande triunfo e inspiração, por causa de sua grave condição de saúde. Todavia, Stephen tornou-se um dos nomes mais proeminentes da física moderna, catedrático de Cambridge, onde ocupa a mesma cadeira outrora pertencente a Sir Isaac Newton, e um dos maiores difusores de informação científica, através de best sellers como Uma breve história do tempo (1988) e O universo numa casca de noz (2002), produzidos quando a síndrome degenerativa que o acomete já impossibilitava sua escrita e fala.

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Crítica: ‘Selma’ – e a cota do Oscar

Em agosto 1963, o ativista e pastor estadunidense Dr. Martin Luther King Jr. teve um sonho de um mundo de paz e com direitos iguais para todos, partilhado em um discurso épico, na escadaria do Lincoln Memorial, em Washington D.C. Em março de 1968, King foi assassinado a tiros em um hotel em Memphis, Tennessee.

Alguém disse um dia que a paz nunca teve uma real chance e que homens e mulheres que batalharam por ela com discursos, ativismo político ou artes, tiveram vidas sofridas e finais dolorosos. De Jesus à menina paquistanesa Malala Yousafzai, de Dalai Lama à irmã Dorothy Stang, de John Lennon a Chico Mendes, parece que a sorte nunca esteve realmente do lado dos engajados num mundo melhor. Leia mais

Crítica: ‘Sniper Americano’ – nada de novo no front

Existem atores que nunca deveriam ter ido para o outro lado da câmera. Eu começo a me convencer de que Clint Eastwood é um deles. Se como ator ele já incomodava alguns com suas personagens valentonas, brutais, agressivas e inconsequentes, como realizador somou tudo isso ao seu patriotismo doentio e ultrapassado, já insuportável no pack A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, de 2006, mas levado à estratosfera em seu mais recente filme.

American Sniper é baseado no livro autobiográfico de Chris Kyle, SEAL americano reconhecido como herói por ter sido “o franco-atirador mais letal da história do exército americano” (esse é o subtítulo de seu livro). Ele participou de quatro tours pelo Iraque durante a guerra ao terror perpetrada pelo governo Bush depois dos atentados de 11 de setembro, e acabou assassinado em 2013 por um colega do exército que sofria de estresse pós-traumático. Leia mais

Crítica: ‘Foxcatcher’

Em 26 de janeiro de 1996, o aristocrata multibilionário John Eleuthère du Pont, herdeiro da família mais rica dos EUA, assassinou com três tiros o atleta de luta livre e medalhista olímpico Dave Schultz. Dave e seu irmão, Mark, trabalharam por cerca de uma década na equipe de treino e fomento ao esporte criada pelo próprio Du Pont em sua fazenda na Pennsylvania, a Team Foxcatcher.

No filme dirigido por Bennett Miller (de Capote, 2005, e Moneyball, 2011), vemos dramatizada através de ótimo ritmo, bom roteiro e grandes performances os eventos que levaram a este crime bizarro que pôs fim à trajetória de um grande esportista de apenas 36 anos de idade, casado e pai de dois filhos. Leia mais

Crítica: Ida

Pawel Pawlikowski não é estranho aos prêmios e circuito de festivais: Last Resort, seu segundo longa, recebeu diversas críticas positivas e foi um dos destaques do Festival de Toronto em 2000. No entanto, desde então, os filmes do diretor têm feito carreiras mais modestas, com uma recepção boa, mas morna.

Em 2013, Pawlikowski retornou a sua terra natal e filmou Ida, que surpreendentemente se tornaria um dos filmes mais falados do ano seguinte e um dos favoritos ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

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Crítica: ‘O Jogo da Imitação’

Ano passado vi um ótimo filme da HBO feito para a televisão, The Normal Heart, que denunciava a proposital passividade do governo estadunidense, na administração Reagan, diante da epidemia de AIDS dos anos 80. À certa altura, o protagonista vivido por Mark Ruffalo, um gay “no armário”, antissocial e insolidário, tem um ataque de fúria diante da morte de tantos amigos, e lembrando homossexuais do passado que sofreram abusos e constrangimentos de uma homofobia normatizada até pouco tempo, o personagem dispara: “Foi um gay o responsável por vencer a II Guerra Mundial!”.

Àquela época não sabia quem havia sido Alan Turing (1912-1954), o “gay que venceu a II Guerra” a quem Mark se referia, mas meu lapso está escusado porque seu nome fora apagado da “história oficial” por cerca de cinquenta anos e só recentemente é que esse gênio histórico, um dos pioneiros das ciências da computação e peça fundamental na vitória dos Aliados sobre a Alemanha nazista, teve sua biografia revisada e seu lugar histórico merecidamente reconhecido. Leia mais

Crítica: Antes de Dormir

Filmes de gênero operam através de um contrato implícito com seu público, confirmando e subvertendo expectativas relacionadas ao gênero em questão. Muitas dessas convenções estão diretamente ligadas a implausibilidades características: monstros em filmes de terror ocasionalmente parecem ter a habilidade de teleportar-se por trás das câmeras; heróis em perigo são frequentemente beneficiados por uma montagem que estica artificialmente o tempo necessário para desarmar uma bomba ou escapar de uma armadilha; etc.

Tudo isso é fácil de aceitar e faz parte da experiência. O problema é quando personagens começam a agir de formas que não se assemelham ao comportamento humano. Uma narrativa convencional pode ter inúmeras coisas absurdas (e o que não falta são filmes absurdos), mas se as reações dos personagens a essas coisas são igualmente absurdas, a conexão é quebrada, a identificação se dissipa e as pessoas começam a se perguntar por que aquele cara está fazendo isso, quando seria muito mais simples fazer aquilo. Leia mais

Crítica: O Amor é Estranho

Algo óbvio: a parcela LGBT da população é vergonhosamente mal representada no cinema, especialmente em Hollywood. Homens gays e pessoas trans frequentemente cumprem a função de alívio cômico como meras caricaturas ridículas; lésbicas e mulheres bi aparecem em uma quantidade desconfortável de vezes como pouco mais que fantasias masculinas; homens bi são basicamente inexistentes; etc.

Algo menos óbvio: talvez por uma compreensível indignação com o problema, a grande maioria dos filmes que tenta ativamente lutar contra esses estereótipos tem como foco a orientação sexual dos personagens. Algo quase inexistente são filmes em que a multitude da sexualidade humana é representada como algo corriqueiro, apenas um detalhe em tramas que não lidam diretamente com isso. Leia mais

Crítica: As Duas Faces de Janeiro

Os romances de Patricia Highsmith já foram adaptados diversas vezes para o cinema, as instâncias mais notáveis sendo provavelmente Pacto Sinistro e O Talentoso Ripley. As Duas Faces de Janeiro é a estreia na direção de Hossein Amini, o roteirista de Drive, e ele trata o material com clara reverência a uma tradição: o filme é positivamente old school, com um ritmo deliberado e um tratamento discreto de sexualidade e violência. Tudo é tão “clássico” que o déficit de atenção do espectador médio do século XXI, acostumado com uma sensibilidade muito mais frenética e sensacionalista, é capaz de nem registrar a obra como um thriller.

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Crítica – Mommy

Xavier Dolan ganhou notoriedade quando, em 2009, com apenas 20 anos, seu longa de estreia foi escolhido para representar o Canadá no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Eu Matei a Minha Mãe era um filme semiautobiográfico que trazia o próprio Dolan como protagonista e retratava a conturbada relação entre uma mãe e seu filho homossexual.

Falho em diversos aspectos, o longa já trazia elementos que se tornariam marcantes na filmografia do jovem, mas prolífico cineasta: a autobiografia e a autoexposição, o lugar incômodo entre documentário e ficção e a forte influência da Nouvelle Vague e diretores como Luis Buñuel. Leia mais

Crítica: Nova Dubai

Não sou de escrever críticas de cinema. Esse é um fato. Não sou especialista nem entendo alguns especialistas. O fato é que gosto de ver filmes e sempre procuro assistir àqueles que mais me deixem intrigado de algum modo. Ou ainda fascinado. Um dos filmes mais recentes brasileiros que vi, Nova Dubai (2014), média-metragem de Gustavo Vinagre, é desses que estimula a gente a falar de cinema e tentar explicar por que gosta ou não gosta de algo.

Trata-se de um filme ainda em processo de estreias. Por aqui, foi exibido no Mix Brasil deste ano, do qual conseguiu uma menção honrosa, e também na Semana de Realizadores do Rio e na Janela Internacional do Recife. O mesmo no Festival de Turim deste ano, tudo em questão de um mês. É uma produção de um jovem cineasta que, desde seu curta Filme para Poeta Cego, não recebe tanta atenção, acredito eu. Algo injusto, considerando que ele não parece fazer mais do mesmo. Nova Dubai se mostra realmente que precisa ser entendido, não simplesmente registrado como mais uma estreia do ano. Leia mais

Crítica: Boyhood

Ser artista é, de alguma forma, crescer aos olhos do público. Ao longo de uma carreira é possível identificar altos e baixos e o inevitável amadurecimento que vem tanto da experiência pessoal quanto da intimidade com a linguagem e a técnica. Em Boyhood, o que Linklater decide fazer é condensar essa experiência de forma radical: ao retratar o crescimento de um garoto acompanhando-o ano a ano, o que ele fez, mais do que o retrato de uma vida, foi um retrato dele mesmo como cineasta.

Linklater começou sua carreira com o simpático Slacker, de 1991, seguido por Jovens Loucos e Rebeldes e Antes do Amanhecer. O longa que dá início a trilogia já comprovava o talento do diretor para o cotidiano, o olhar terno sobre as relações e o interesse profundo no que parece banal. Ao longo dos 18 anos seguintes, junto com Ethan Hawke e Julie Delpy, a história seria expandida e os personagens ganhariam corpo, nuance e amadurecimento nas telas. É um projeto interessante, com graus de sucesso variáveis: Jesse cresce maravilhosamente ao longo dos anos, a Celine de Antes da Meia Noite não é a mesma mulher dos anteriores, nem sequer uma versão mais velha delas.

Boyhood é como o próximo passo. O filme foi chamado de revolucionário e inédito, mas inscreve-se de forma bastante coerente e esperada na cinematografia de Linklater.

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