Crítica: ‘Interestelar’ – mania de grandeza

É inegável que Christopher Nolan, com a trilogia Batman e A Origem, recuperou um pouco da grandeza do Cinema perdida desde o crepúsculo da Era de Ouro, tempo que das produções de tamanho inconcebível como …E O Vento Levou (1939), Ben-Hur (1959) e Cleópatra (1963). Certamente ele não é o único megalomaníaco bem-sucedido dos tempos atuais (alô, James Cameron!), mas seu estilo de filmar (em 70mm), o tamanho de suas produções, a constelação de seus casts e seu alto apelo de público têm resultado em verdadeiros filmes-eventos.

Hoje, Nolan é um dos poucos realizadores que consegue sempre nos garantir uma experiência cinematográfica; para tanto, não tem pudores de se valer do robusto orçamento da Warner, da mais alta tecnologia de pesquisa e filmagem e em fazer seu público desembolsar um pouco mais para acompanhar seus projetos nas salas mais caras do circuito, especialmente em XD e Imax. Leia mais

Crítica: Força Maior

 por Lidyanne Aquino

Em Força Maior, vencedor do prêmio Un Certain Regard em Cannes, dirigido por Ruben Östlund, o cenário é perfeito para contar uma história tranquila. Ebba (Lisa Loven Kongsli) e Tomas (Johannes Kuhnke) aproveitam as férias para viajar com os filhos pequenos, Vera (Clara Wettergren) e Harry (Vincent Wettergren), aos Alpes franceses. Com sequências que se repetem na primeira parte do longa, esse cenário de serenidade parece até um pouco entediante: todo dia eles acordam, passam o tempo esquiando e depois dormem. Até o dia em que, durante o almoço, uma rápida avalanche pega a família de surpresa. Então observamos como um acontecimento corriqueiro e aparentemente inofensivo pode desencadear uma série de infortúnios.

Tudo parece sob controle no início da avalanche, tanto que as pessoas já deixam o celular a postos para registrar o fenômeno. A cenografia é digna de nota – em poucos segundos a neve toma conta da tela e só ouvimos os gritos de Ebba solicitando ajuda para proteger os dois filhos. Todos saem ilesos, mas o desconforto passa a ser evidente depois dessa passagem. Ebba acusa Tomas por ter resgatado o próprio celular e sair correndo ao invés de ajudar a família. Tomas insiste que não correu, mas tem dificuldades em se justificar quando a esposa aponta sua falha. O que poderia ser um mero incidente acaba por desfazer o cenário da família perfeita com as férias dos sonhos. Qualquer circunstância se transforma em motivo para discussão, seja durante um jantar ou um casual encontro entre amigos. Os filhos não entendem, mas os pais também não se dão o trabalho de explicar. Leia mais

Mostra de SP: Dia 12

Dia 12: C’est fini.

It’s over. Es ist vorbei. Vi dois brasileiros, dois russos, cinco franceses, dois argentinos, dois suecos, um chinês, um italiano, um turco, um georgiano etc, mas a coisa mais diferente, de longe, foi americana. A seguir, tentarei articular a experiência de assistir a Os Convidados (Ken Jacobs, 2014), minha última sessão da Mostra e algo que eu só recomendaria para os espectadores mais aventureiros. É algo que os teóricos classificariam como acinema; não tem nada parecido com uma narrativa aqui, tampouco um “tema” propriamente dito. Ou melhor, o tema é o próprio cinema e suas possibilidades.

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Mostra de SP: Jauja (Lisandro Alonso)

Dia 11: Há algo de podre no reino da Patagônia.

Estamos chegando ao fim dessa epopéia. Se teve alguma coisa para conectar tudo que eu vi nessa Mostra, talvez sejam as forças da natureza. Nuvens, avalanches, desertos, rios, mares e animais foram apropriados de diversas formas para explorar os mais variados temas. O filme a que assisti hoje manteve esse padrão, com uma forte presença de cavalos, desertos e cachorros, mas eu não faço a mínima ideia do que ele está explorando.

Jauja (Lisandro Alonso, 2014) é um filme estranho. Alguns nomes de diretores que pipocaram aleatoriamente na minha cabeça durante a sessão: Ford. Kurosawa. Tarkovski. Herzog. Não que o estilo do filme se assemelhe muito ao de algum desses, mas os elementos básicos provavelmente devem sua existência à influência de pelo menos alguns deles: trata-se de uma espécie de western revisionista com uma fotografia obsessivamente composta que envolve um homem lutando contra a amplitude implacável de um cenário natural.

Viggo Mortensen é um engenheiro militar dinamarquês chamado Gunnar Dinesen, que está na Patagônia do século XIX supervisionando a construção de trincheiras (ou algo assim). Ele é tratado como Capitão, usa um uniforme de cavalaria e por algum motivo trouxe sua filha de 14 anos, o que obviamente não vai acabar bem. Quando primeiro o vemos, Gunnar está em um acampamento no litoral, acompanhado de Pittaluga, um Tenente local cujas intenções são meio duvidosas. Pittaluga se refere à população indígena da Argentina como “cabeças de coco,” e oferece a opinião de que deveriam ser todos exterminados.

Eventualmente, a filha de Gunnar foge com um jovem soldado chamado Corto, e nosso herói parte em uma aventura para resgatá-la, mas a presença de um desertor que virou bandido no deserto surge para complicar as coisas. Considerando os elementos básicos da trama, o filme pode ser definido como uma releitura minimalista de Rastros de Ódio, mas, na prática, é um filme sobre Viggo Mortensen se movendo pelo deserto, às vezes a cavalo, às vezes a pé. Pela maior parte, trata-se de uma trama de aventura que, fora a abordagem estilizada e a falta de incidentes, é até bem linear e convencional.

Sobre essa estilização: Jauja foi todo filmado no formato 4:3 (também conhecido como academy ratio); ou seja, a tela é praticamente quadrada. Não só isso, mas as bordas são arredondadas e as cores são tratadas de uma forma que lembra aqueles filmes antigos em Technicolor de três fitas. As composições são milimetricamente precisas: elementos em primeiro plano são equilibrados com coisas minúsculas lá no fundo, tudo emoldurado pela paisagem característica dos desertos da Patagônia em planos que desesperadamente querem parecer pinturas. É o tipo do filme onde cabeças nunca são cortadas pela borda superior da tela e os olhos dos atores coincidem com a linha do horizonte sempre que possível.

Esses elementos dão ao filme um clima levemente onírico que vai se intensificando conforme a trama avança, culminando em um encontro surreal em uma caverna, onde passado e presente se encontram e o espectador fica coçando a cabeça tentando entender o que tudo isso está dizendo. Provavelmente algo sobre a perda da inocência? Eu não sei. A boa vontade que eu teria em refletir sobre essa cena foi por água abaixo a partir do momento em que o Alonso, ao invés de terminar o filme aí, decidiu incluir o Epílogo Mais Desnecessário De Todos Os Tempos, basicamente defenestrando tudo que aconteceu até então, ao mesmo tempo em que tenta reconfigurar simbolismos vagos envolvendo cachorros e um soldadinho de madeira.

O jeito que filmes terminam é muito importante para mim. Não que eu os assista só para saber como acabam, mas um bom final pode concretizar os temas de uma forma relevante, fazendo você refletir sobre tudo que veio antes, e/ou criar um momento impressionante que reverbera por um bom tempo depois que o filme terminou. Jauja até tenta fazer isso, mas falha espetacularmente.

**1/2 – Garanhão Puro Sangue

 

Crítica: Um Pombo Pousou em um Galho e Refletiu Sobre a Existência

Roy Andersson, de acordo com uma certa tradição dos cineastas de seu país, coloca a humanidade, o que lhe é essencial, comum e profundo, como centro de seu cinema. Seu filme anterior, Vocês, os Vivos, se apresentava como “um filme sobre a humanidade, suas alegrias e tristezas, seu desejo de amar e ser amado.” Seu longa atual tem, a princípio, objetivos menos grandiosos: é sobre um par de caixeiros-viajantes e sobre, de alguma maneira, um pombo que pousou em um galho e refletiu sobre a existência. Leia mais

Crítica: ‘A Luneta do Tempo’ no Festival do Rio

A Luneta do Tempo é o empreendimento audiovisual biográfico-ficcional-musical-e-metafísico de estreia na direção e no roteiro do cantor Alceu Valença. Biográfico porque seu quase-protagonista é Lampião, vivido por Irandhir Santos; ficcional porque aproveita as brechas para inserir assuntos caros ao autor, como a vida circense; musical porque suas músicas, muitas delas do próprio diretor, são mais do que adornos, mas ferramentas narrativas que costuram toda a história; metafísica porque trabalha com um conceito transcendental e é, sobretudo, uma ode ao espírito vivo do cangaceiro pernambucano.

Há também filosofia nessa fábula, misturando a lei do eterno retorno nietzschiano com o preceito de Karl Marx de que a história repete-se duas vezes, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa: no sertão pernambucano, Lampião, Maria Bonita (Hermila Guedes) e seu bando fogem da caçada da polícia local, liderada por Antero Tenente (Helder Vasconcelos). O embate final entre eles é trágico (e lindamente filmado), deixando resquícios para os tempos futuros e as gerações vindouras em situações muito semelhantes. Leia mais

Crítica: Garota Exemplar

Todo cineasta tem certas influências chaves, os autores que, em um primeiro momento, moldaram seu entendimento e sua percepção do cinema. Para mim, David Fincher foi um deles: seus filmes foram os primeiros em que descobri o cinema enquanto tecido, linguagem e forma manipulável. Para ele, e nesse filme isso se torna mais claro do que nunca, Hitchcock é um pilar de formação.

Garota Exemplar é hitchcockiano até os ossos. A referência está na atuação de Rosamund Pike, loira, impecável, alternando e misturando o charme de uma Grace Kelly com a impenetrabilidade de Kim Novak em Vertigo, ou Tippi Hedren em Marnie, na fotografia contrastada e no plano que faz o motel de beira de estrada notavelmente parecido com o Bates Motel. Está também, mas do que em tudo, no clássico whodunnit. Leia mais

Crítica: A Bela e a Fera

Nós voltamos repetidamente a contos de fada não em busca de novidades, mas de narrativas que permanecem as mesmas ao longo de séculos e, ainda assim, fazem sentido e falam a uma parte importante de nós mesmos.

Não é necessariamente uma questão de fidelidade à história, mas de repetição de arquétipos, de trazer à tona uma mensagem, uma “moral da história” do conto de fadas. Surreal e complexo, A Bela e a Fera de Jean Cocteau contava a mesma história que a versão mais simples e mais açucarada da Disney. Leia mais

Crítica: ‘Rio, eu te amo’

Por mais que odeie frases prontas, sempre genéricas e às vezes também moralistas, dou o braço a torcer àquela que diz que “menos é mais” e Rio, eu te amo, terceiro filme da série Cities of Love é prova cabal disso.

O filme conta com uma estrutura de divulgação poderosa, um esforço conjunto da gigante Warner e da Empyrean Pictures com as produtoras nacionais Conspiração e Bossa Nova Films, além do apoio da prefeitura do Rio. Seu lançamento não é apenas um acontecimento cinematográfico, mas abarca toda a cidade em áreas que vão da gastronomia a eventos bundalelês como “declare seu amor à cidade”. Na direção dos dez segmentos que compõem a narrativa, apenas nomes estrangeiros e pratas da casa de prospecção internacional: de Paolo Sorrentino, premiado como Oscar de melhor estrangeiro desse ano por A Grande Beleza (2014), a Carlos Saldanha, hoje o diretor brasileiro mais bem sucedido no exterior, das franquias de animação A Era do Gelo (2002) e Rio (2011); de John Torturo (Amante a Domicílio, 2014), a José Padilha (Tropa de Elite, 2007), passando por Fernando Meirelles (Cidade de Deus, 2002), o mexicano Guillermo Arriaga (roteirista de 21 Gramas, 2003), a libanesa Nadine Labaki (Caramelo, 2007) e até o sul-coreano Sang-soo Im (The Old Gardner, 2006). O time de atores é predominantemente nacional, com nomes bem conhecidos como Fernanda Montenegro, Marcelo Serrado, Wagner Moura, Claudia Abreu, Rodrigo Santoro, Tonico Pereira, além da nova geração composta por Bruna Lizmeyer, Cleo Pires, Laura Neiva e até Eduardo Sterblitch (do programa Pânico na TV). Para vitaminar essa mistura, também estão os americanos Heyvel Keitel e John Torturo (protagonista, ao lado da francesa Vanessa Paradis, do segmento que ele próprio dirige), o francês-quase-brasileiro Vincent Cassel e inglesa Emily Mortimer (da série The Newsroom).

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Crítica: Miss Violence

Miss Violence começa com uma festa infantil: um bolo, garotas loiras em vestidos de cor pastel correndo e brincando em volta da sala, balões. Lentamente a câmera se afasta da festa e acompanha Angeliki, a aniversariante, toda vestida de branco, em direção à sacada. Ela então olha para o espectador, sorri desafiadora e se joga.

Alexandros Avranas lança então seu filme como um desafio: o sorriso de Angeliki torna o espectador seu cúmplice e ao mesmo tempo o acusa. Algo acontece ali, algo está obviamente errado com aquela família, mas todos, amigos, assistência social, professoras, parecem cegos. Angeliki, a protagonista que sai de cena nos primeiros segundos de filme, convida o espectador a ver. Leia mais

Crítica: Sin City – A Dama Fatal

Quando Sin City apareceu nos cinemas em 2005, as reações foram em geral bastante positivas (o filme atualmente tem 74% no Metacritic). Roger Ebert disse que, mais do que uma adaptação de quadrinhos, o filme era como uma história em quadrinhos ganhando vida e sendo injetada com esteroides. É inegável que Robert Rodriguez e Frank Miller haviam criado algo visualmente extraordinário. Chroma key (ou “tela verde/azul”) era até então mais uma ferramenta no arsenal de cineastas que trabalhavam com efeitos especiais, utilizada para ajudar a gerar ilusões e criar planos impossíveis (ou muito difíceis) de filmar, uma progressão de técnicas existentes desde a infância do cinema, como fundo projetado, matte etc.

Sin City fez algo diferente, utilizando a tela verde para gerar uma nova estética, uma realidade amplificada criada quase inteiramente na pós-produção. Não foi o primeiro filme a fazer isso, mas foi o primeiro que chamou a atenção do público o suficiente para semear empolgação sobre as possibilidades da técnica (Capitão Sky e o Mundo do Amanhã havia feito basicamente a mesma coisa, mas a recepção daquele filme foi tão morna que, um ano depois, ninguém parecia se lembrar disso). O que fez a diferença, obviamente, foi a adequação à fonte: como Ebert disse, o visual de Sin City fazia os painéis de Miller ganharem vida na frente de nossos olhos. Era algo que simplesmente fazia sentido nessa adaptação, de forma que é impossível pensar no filme sendo feito de outra forma. Leia mais

Crítica: Mesmo Se Nada Der Certo

por Lidyanne Aquino

Assim como Apenas Uma Vez (2006), Mesmo Se Nada Der Certo (2013) é um filme sobre música. O diretor irlandês John Carney é caro ao tema, possíveis resquícios dos tempos em que tocava na banda The Frames, antes de se dedicar ao cinema. Também não recusa o apego aos clichês: ele retoma o velho caso da música como alternativa ideal para salvar a vida das pessoas. Mas o faz de uma forma tão autêntica que as obviedades do tema não te fazem revirar os olhos em desprezo.

Dan (Mark Ruffalo) é um produtor musical frustrado. Ele acaba de ser demitido da produtora que ajudou a fundar quando se surpreende com Greta (Keira Knightley). E não, não é do modo romântico. Convidada por um amigo, a moça, embora insegura, toca uma música que compôs há pouco tempo. Sozinha, só voz e violão, em um boteco de quinta em Nova York. Dan se sente tão envolvido que consegue imaginar até mesmo a entrada de outros instrumentos ao longo da canção. Nesse momento, ele inicia uma saga de insistência desesperada para produzir Greta e lançá-la aos holofotes. Leia mais