Antologia do teatro brasileiro do séc. XIX – comédia

em 3 de julho de 2012

Informações

  • Autor: Alexandre Mate e Pedro M. Schwarcz (orgs.)
  • Tradutor:
  • Editora: Penguin-Companhia das Letras
  • Páginas: 480
  • Ano de Lançamento: 2012
  • Preço Sugerido: R$ 29,00

Como parte da coleção Penguin-Companhia das Letras, lançou-se há cerca de um mês a Antologia do teatro brasileiro do séc. XIX – comédia, organizada por Alexandre Mate e Pedro M. Schwarcz. Essa publicação vem muito a calhar em tempos nos quais não temos várias edições nas quais podemos ler textos dramáticos do século XIX que não sejam aqueles lidos nos colégios ou para vestibulares. Além dos volumes com a obra completa dos dramaturgos brasileiros desse século feitos há décadas pelo Estado, não há muitos volumes de caráter antológico.

Essa antologia, além de nos oferecer essa possibilidade de leitura, serve como estímulo ao leitor para descobrir mais da comédia brasileira. Como explica em uma ótima introdução João Roberto Faria, professor de literatura brasileira da Universidade de São Paulo (USP), a referida antologia apresenta justamente a comédia nacional por ter sido um gênero muito prolífico especialmente durante o Romantismo. Muitos intelectuais e aspirantes a escritores buscavam se dedicar ao teatro como meio de se inserirem na sociedade, chamando a atenção desta para suas demais obras.

O pioneiro da comédia brasileira, responsável por seu desenvolvimento posterior no século XIX, é Martins Pena, autor de duas peças da antologia: O noviço e Os ciúmes de um pedestre ou O terrível capitão do mato. O primeiro texto, muito lido inclusive nas escolas hoje em dia, é um marco inicial na história do teatro nacional por estabelecer a farsa portuguesa, de origem medieval, como parâmetro para a comédia. Apesar desse lado tradicional, o teatro de Martins Pena ainda insere uma crítica social de gosto muito romântico como motor de suas tramas, que expõe a hipocrisia da burguesia carioca. Temas como a valorização do dinheiro em detrimento do humano, o casamento arranjado, o estabelecimento da família por seu patriarca e o descompasso entre os rumos do privado e do público permeiam suas criações.

No mesmo sentido de comédia que é posto por Martins Pena, temos na antologia os textos de O primo da Califórnia, de Joaquim Manuel de Macedo, Maldita parentela, de França Júnior, e Amor por anexins, de Artur Azevedo. Cada uma ao seu modo, essas peças desenvolvem a comédia de Pena com um tom mais burlesco e cômico, mantendo certas peripécias típicas da comédia europeia da época. Esse modelo veio do vaudeville francês, o qual foi muito lido e apreciado pelos dramaturgos brasileiros e pelo público que assistia às montagens aqui realizadas. Sob os moldes da pièce bien faite (“peça bem feita”), comediógrafos como Eugène Scribe escreviam obras que foram diretamente responsáveis pelos rumos do teatro do então Império do Brasil. Em certos casos os próprios autores também faziam as vezes de críticos dos jornais que ditavam quais peças estavam “bem feitas” ou não, dentre eles Artur Azevedo.

Apesar do grande interesse nos textos cômicos desses escritores, havia intelectuais para os quais essa comédia não tinha um caráter moralizante, apesar da crítica aos costumes da parte de algumas peças. José de Alencar foi um dos primeiros a procurar desenvolver uma comédia que não fizesse uma mulher ficar corada, como ele mesmo disse. Ao lançar Rio de Janeiro, verso e reverso, na antologia publicada com o título novo dado pelo autor, Verso e reverso, não encontramos nada da hilaridade burlesca de antes, mas sim um texto que busca mais do que tudo na ironia seu humor. Pela trama que mostra como um paulistano (provinciano na época) vê só males na corte, no Rio de Janeiro do período imperial, para depois se retratar pela nova visão da capital que o amor por uma prima lhe oferece.

Com objetivos parecidos com os de José de Alencar, o então jovem Machado de Assis, hoje conhecido por seus contos e romances, começou a atuar nos meios culturais cariocas através da crítica teatral e depois da própria criação dramatúrgica. Na época, Machado escrevia suas peças pensando em como agiria como promotor de certa civilidade na sociedade brasileira. Sua estréia, O caminho da porta, comédia em um ato, se trata de um ligeiro enredo clássico de amor, em que há certa disputa sobre uma mulher. Bem ao gosto da classe burguesa carioca, essa peça que, assim como a de José de Alencar, visava um humor mais “sofisticado” e menos farsesco.

Além disso, aqui já podemos notar alguns traços da prosa que Machado viria a escrever, já que na época de O caminho da porta o autor estava mais ligado à crítica teatral e à dramaturgia do que ao romance. É interessante perceber que o doutor Cornélio, personagem dessa peça, se assemelha ao conselheiro Aires de Esaú e Jacó e do Memorial de Aires. Ambos atuam como figuras mais velhas com experiência de vida que dão conselhos a jovens moços. Na disputa por Carlota, os passionais Inocêncio e Valentim muito dialogam com o doutor, sendo que ele mesmo fora encantado pela moça anos antes.

Certamente o mais distinto dos autores presentes na antologia é o Qorpo-Santo, que é representado pelos textos de Um credor da fazenda nacional e O marinheiro escritor, sendo comédias em dois atos. Esse autor hoje em dia é lido como precursor em certos aspectos do teatro do absurdo do pós-guerra europeu, porém, se o compararmos com os outros comediógrafos brasileiros de seu século, veremos que seu teatro não surgiu do nada. Há personagens planos como os da comédia romântica, porém todos os acontecimentos da peça parecem desestabilizar qualquer ordem determinada pelo teatro burguês. A organização de seu texto ainda mantém a estrutura em atos, porém tem uma de divisão de cenas que altera completamente o que fora estabelecido pela tradição. Qorpo-Santo, sendo também proponente de uma nova ortografia para o português, se mostra revolucionário tanto quanto transparece por suas criações.

Por esse longo texto (juro que o tamanho era necessário) espero ter demonstrado a variedade que a antologia oferece ao leitor, que não pode assistir às peças como foram montadas da época, porém tem acesso à literatura dramática nacional do século XIX. Percebe-se que a transformação que o Romantismo proporcionou à literatura brasileira também foi significativa no teatro, ainda que de forma bem diferente, desenvolvida pela comédia em toda sua diversidade.

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