Mostra de SP: Dia 9

Acabou. Voltamos à vida normal, à ausência de línguas da Ásia Central e à triste existência sem dois filmes todo dia. Adeus credencial, vai ser feliz na gaveta.

Jauja – Um capitão dinamarquês vai com a filha para a América do Sul em busca de riquezas e sucesso. Enquanto vivem em um deserto isolado da civilização, ela foge com um pagem e ele sai para buscá-la, em uma jornada por terrenos que parecem além do domínio humano.

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Mostra de SP: Dia 8.1

Uma das minhas coisas preferidas da Mostra é poder sair falando por aí “eu vi um filme filipino, mas falado em tailandês, com uma atriz húngara” como se fosse a coisa mais normal do mundo. Islândia já é normal, Indonésia já vimos alguns, Azerbaijão e Cazaquistão já teve também, então a Mostra inova: filme ucraniano, falado em libras, sem tradução. Leia mais

Mostra de SP: Dia 8

Dia 8: Amores Apáticos

A Mostra às vezes é um martírio, então eu gostaria de agradecer aos realizadores dos filmes de hoje por não esticarem as coisas além do necessário. Blind Dates (Levan Koguashvili, 2013) é um dos poucos longas da Georgia a que assisti, e o primeiro de Koguashvili. Já dá pra notar que ele tem bastante talento e provavelmente vai se tornar bem popular, pelo menos entre o público de festivais. O filme é engraçado, muito bem atuado e conta uma história bastante universal que, não obstante, contém elementos periféricos bem regionais (aparentemente, futebol é tão importante lá quanto aqui).

Sandro é um professor de história taciturno e inexpressivo que parece um personagem do Kaurismaki. Ele tem 40 anos e ainda não se casou, fato do qual seus pais (com quem ainda mora) não o deixam esquecer. Essas interações com os pais são invariavelmente hilárias, especialmente por causa do ator que faz o pai, que tem uma capacidade ímpar para gerar humor atrás de falas ditas de forma brusca e impaciente. Leia mais

Mostra de SP: As Noites Brancas do Carteiro (Andrey Konchalovskiy)

Dia 7: Mais noites brancas e mais vodca.

 

A primeira imagem de As Noites Brancas do Carteiro (Andrey Konchalovskiy, 2014) mostra duas mãos masculinas (a direita sem a primeira falange do polegar) manipulando várias fotos e falando sobre as pessoas nelas registradas. Um homem bebeu vodca demais e se afogou. Risos da plateia. A voz acrescenta que também teve problemas com vodca. Mais risos. Título, tela preta, uma legenda explicando que o filme a seguir foi filmado no norte da Rússia com os próprios habitantes do local e é baseado em histórias reais que aconteceram ali. Silêncio. Leia mais

Mostra de SP: Dia 7

O fim de semana, a época de ver mil filmes em um dia e receber aquela tradicional cara de dó da atendente do café que eu sei que quer me perguntar “moça, mas você nunca vai pra casa?”

O Medo – É muito comum encontrar na Mostra filmes que têm uma boa premissa, mas ao decidir escapar das formas tradicionais, subverter a lógica do roteiro ou o que quer que seja, acabam esvaziados. O Medo é um desses. Leia mais

Crítica: Um Pombo Pousou em um Galho e Refletiu Sobre a Existência

Roy Andersson, de acordo com uma certa tradição dos cineastas de seu país, coloca a humanidade, o que lhe é essencial, comum e profundo, como centro de seu cinema. Seu filme anterior, Vocês, os Vivos, se apresentava como “um filme sobre a humanidade, suas alegrias e tristezas, seu desejo de amar e ser amado.” Seu longa atual tem, a princípio, objetivos menos grandiosos: é sobre um par de caixeiros-viajantes e sobre, de alguma maneira, um pombo que pousou em um galho e refletiu sobre a existência. Leia mais

Mostra de SP: Dia 6.1

Dia 6: Dilemas, dragões e docuficção.

Depois da experiência de ontem, foi bom inaugurar o dia hoje com um filme de gênero em que as coisas acontecem em um esquema de causa e consequência facilmente digerível. Confesso que parte da motivação que me levou a incluir Detetive D: O Dragão do Mar (Tsui Hark, 2013) na minha programação foi a ideia de escrever as palavras “Detetive D: O Dragão do Mar” no Posfácio, mas o fato é que esse filme é bem melhor que a maioria dos blockbusters americanos. Leia mais

Mostra de SP: Dia 6

Prêmios são coisas estranhas de entender, na maior parte das vezes, ganha menos o “melhor filme” e mais aquele que por algum motivo vai de acordo com a agenda, o perfil, ou o júri específico daquele ano do festival. A Mostra é sempre a boa chance de ver os premiados do mundo todo e tentar entender por que raios eles ganharam.

Azul e Não Tão Rosa – O melhor filme ibero-americano nos Goya ganhou de A Jaula de Ouro e Gloria. É pior do que ambos. Tem um bom roteiro, mas soluções clichês, atuações duvidosas, uma fotografia feia e produção terrível. Não é propriamente ruim, mas a má execução mata o que poderia ser um filme sobre temas poderosos: homofobia, relacionamentos abusivos e a necessidade de respeito à diversidade. Leia mais

Mostra de SP: Dia 5.1

Há boatos de que chego atrasada em todas as cabines. Nego. Como nego que toda Mostra eu chegue atrasada em algum filme por pura lerdeza e acabe vendo sentada no chão. Nego até a morte.

Tudo Que Amamos Profundamente – Desde o início do filme algo está errado. É possível sentir o cheiro nas falas, nas atuações, na fotografia e na música de que algo não vai bem na história apresentada. É apenas o primeiro longa de Max Currie, mas ele manipula o espectador como um mestre: quando o pecado dos personagens é revelado, já estamos tomados demais por eles para julgar.

É um filme sobre acreditar naquilo que queremos acreditar e sobre as mentiras contadas para seguir em frente. Com atuações precisas e excelentes e uma fotografia linda, o filme é uma das boas produções que têm chegado recentemente da Nova Zelândia. Leia mais

Crítica: ‘A Luneta do Tempo’ no Festival do Rio

A Luneta do Tempo é o empreendimento audiovisual biográfico-ficcional-musical-e-metafísico de estreia na direção e no roteiro do cantor Alceu Valença. Biográfico porque seu quase-protagonista é Lampião, vivido por Irandhir Santos; ficcional porque aproveita as brechas para inserir assuntos caros ao autor, como a vida circense; musical porque suas músicas, muitas delas do próprio diretor, são mais do que adornos, mas ferramentas narrativas que costuram toda a história; metafísica porque trabalha com um conceito transcendental e é, sobretudo, uma ode ao espírito vivo do cangaceiro pernambucano.

Há também filosofia nessa fábula, misturando a lei do eterno retorno nietzschiano com o preceito de Karl Marx de que a história repete-se duas vezes, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa: no sertão pernambucano, Lampião, Maria Bonita (Hermila Guedes) e seu bando fogem da caçada da polícia local, liderada por Antero Tenente (Helder Vasconcelos). O embate final entre eles é trágico (e lindamente filmado), deixando resquícios para os tempos futuros e as gerações vindouras em situações muito semelhantes. Leia mais

Mostra de SP: Dia 5

Dia 5: Diálogosdiálogosdiálogosdiálogosdiálogosdiálogos

Tinha que acontecer, mais cedo ou mais tarde. Noites Brancas no Píer (Paul Vecchiali, 2014) parece uma paródia de filmes de festival: planos estáticos, atuações mecânicas, mise en scène minimalista, diálogos intermináveis declamados por atores que frequentemente olham em direções aleatórias etc. Trata-se de uma adaptação do conto Noites Brancas de Dostoiévski, que narra a história de um rapaz denominado apenas como o “Sonhador”. Durante quatro noites, o Sonhador tem encontros com uma garota que espera pelo homem por quem é apaixonada, e acaba se apaixonando por ela no processo. Leia mais

Mostra de SP: Dia 4.1

Alguns anos atrás, o cinema argentino era um dos mais ativos e fortes do mundo. Suas produções tinham vitalidade e uma despretensão que levou ao seu sucesso: os argentinos não almejavam ser hollywood, mas contar boas histórias em filmes simples e baratos, fazer o que era possível dentro das dificuldades de produção do país. O sucesso acabou cristalizando alguns formatos e autores, mas essa Mostra traz diversos exemplares de um cinema mais jovem, que novamente traz a graça dos melhores filmes argentinos.

Ciências Naturais – No meio do nada, no norte da Argentina, Lila é uma garota que vive com  a mãe e frequenta um colégio interno. Ela é obcecada com a ideia de encontrar o pai, que desapareceu assim que soube que sua mãe estava grávida. Leia mais