Histórias e Estórias – O Japão de Kawabata e o de Murakami

Fico pensando que tipo de comparações poderiam ser feitas entre as obras Yasunari Kawabata e Haruki Murakami. Não estou falando em questões de estética e de estilo, necessariamente, mas de tratamento de temas, de questões, de abordagem, de personagens etc. De antemão explicito que me baseio no romance Kyoto (1962), do primeiro, e Kafka à beira-mar (2002) do segundo.

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Histórias e Estórias – Temporalidades – Parte II

No mês passado minha coluna, no intuito de explorar um pouco a temporalidade na constituição da condição dos homens na história, falou sobre o calendário revolucionário francês, instituído em 1792. Nesse mês proponho que nos detenhamos um pouco sobre a temporalidade a partir de um capítulo do livro Costumes em Comum, do historiador Edward Palmer Thompson, “Tempo, Disciplina de Trabalho e Capitalismo Industrial”.

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Histórias e Estórias – Temporalidades – Parte I

Há uma definição clássica de História feita por Marc Bloch em Apologia da história ou o ofício do historiador que a resume numa frase mais ou menos assim: a História é a ciência que estuda os homens no tempo. Descobrimos que essa síntese é resultado de um estudo longo, e que, apesar de seu caráter sucinto, acerta em cheio nos pilares centrais da historiografia.

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Histórias e Estórias – Astúrias e o “realismo mágico-histórico”

O escritor guatemalteco Miguel Angel Astúrias, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1967, traduziu do quéchua muitas das lendas que faziam parte dos mitos de criação da civilização maia, reunidos no livro Leyendas de Guatemala, infelizmente sem tradução. A história dos maias percorre boa parte de suas obras e serve como elemento narrativo tanto quanto como fonte de inspiração para tratar dos conflitos contemporâneos da Guatemala.

A utilização do legado maia nas obras de Astúrias não é incidental. Astúrias não era um observador do passado pelo passado, o passado lhe vinha como pré-condição do presente, como elemento que estrutura a vivência atual. Em vários de seus escritos, desde romances até contos, os personagens são pessoas comuns que habitavam a Guatemala de seu tempo. São camponeses, trabalhadores rurais, artesãos, curandeiros, pescadores etc., mas são também os soldados norte-americanos que encontravam-se no país, diretores e gerentes de grandes empresas, pensadores e ativistas políticos.

Uma pergunta que poderá ter surgido depois dessa breve exposição é a seguinte: o que é essas duas realidades tão distintas (o passado das lendas da maias e o presente da dominação imperialista e embate ideológico) tem a ver uma com a outra? Apesar dos séculos de História que entre elas se interpõem, Astúrias consegue capturá-las e catalisá-las através de sua literatura.

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Histórias e Estórias – As Microvilosidades da Influência

Acho que boa parte de vocês sabem (ou supõem) que estudo História e que o faço, entre outros meios através da literatura. O título da minha coluna é um bom indício disso e eu já devo ter falado algumas vezes em uma resenha ou outra. Investigo as obras de John Steinbeck (1902-1968) da década de 30 e discuto o retrato que ele produziu acerca do processo de empobrecimento e expropriação das antigas classes médias dos Estados Unidos. Não vim aqui hoje falar sobre a minha pesquisa (prometo que ainda o farei), mas sobre alguns pontos que acho bastante interessantes para serem discutidos acerca da complexa (e controversa) relação entre a literatura e a história.

Esse não é um assunto que eu já não tenha abordado em outros momentos, mas queria explorá-lo aqui sob uma perspectiva que me pareceu deveras relevante ao tratar dessa questão, e diz respeito ao tratamento que Carlo Ginzburg dá quando de suas próprias análises.

Eu já escrevi uma resenha sobre os quatro ensaios do historiador italiano reunidos no livro Nenhuma ilha é uma ilha (recomendo a leitura dela antes de avançar nesse texto), e, diante do comentário um tanto restrito nessa ocasião, resolvi explorar essa temática aqui um pouco mais a fundo. Por favor, não entendam essa coluna como um manual de como lidar com essa questão nem como um apanhado de curiosidades acerca do tema, um dos principais motivos que me levam a escrevê-la é a esperança de que ela gere fortuna crítica. Isso mesmo, discussões, por isso façam uso da seção de comentários para se manifestarem. São eles que, concordantes ou não, nos ajudam a crescer e nos animam a escrever mais e mais.

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Histórias e Estórias – O Épico e o Romanesco – Parte II

Se você não leu a coluna do mês passado, é uma boa dar uma olhadela rápida nela.

Lá eu explorava a constituição do romance a partir do que Lukács chamou de “mundo fragmentado”, em contraste com a organicidade típica da Antiguidade, sendo, portanto, essa, a principal razão pela qual o romance se distingue tão nitidamente da epopeia.

Se o romance buscava a unidade que era encontrada antigamente, não se pode dizer que essa fosse a única de suas características. Talvez fosse a mais marcante, inclusive por conta das inúmeras lutas contestatórias e projetos de sociedade que se digladiavam ainda de forma embrionária no caldeirão em que o romance foi fervido, mas existem diversos fatores que precisam ser levados em consideração, inclusive para se matizar a compreensão de tão vasto e multifacetado “formato”.

Para começar a descascar essa questão, podemos lembrar que um dos marcos do que se convencionou chamar de “romance” foram as obras do inglês Samuel Richardson, principalmente, Pamela e Clarissa, dois romances epistolares que são tidos por alguns pesquisadores e estudiosos como os livros que inauguraram o “formato” romance.

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Histórias e Estórias – O épico e o romanesco – Parte I

Lukács é deveras um pensador intrigante, seja para a Filosofia, seja para a História, seja para a Literatura. Seu estilo de escrita é daqueles intrincados, não porque tenha volteios ou exercícios estéticos em demasia, nada disso; mas quando se trata de expor uma ideia ou expressar em palavras uma reflexão cheia de meandros e de silogismos nada lineares, ele abusa das frases longas e torna a leitura uma tarefa hercúlea. Pelo menos as recompensas não são poucas nem fugazes.

Não nos alonguemos sobre o estilo de Lukács, partamos para o conteúdo de seus estudos, nesse caso o romance.

O romance intrigou Lukács ao ponto de fazê-lo, já em 1917 (antes da publicação de suas obras mais famosas) dedicar-se a compreender as implicações e as razões históricas e filosóficas desse “fenômeno” tão literário quanto social. E eis que no ensaio Teoria do Romance ele procura compreender melhor não só a gênese desse “formato”, mas os significados dele perante o universo da literatura e o contexto histórico no qual esteve inserido.

Por conta dessa referência, foi pelo contraste entre a epopeia que as estruturas e as peculiaridades do romance vieram à tona com mais clareza. Uma vez que ele não compreende a literatura como uma instância “a-histórica” ou “a-social”, mas justamente fundada e emaranhada no tecido do social; acabou que se contrapuseram também dois contextos históricos distintos: um em que a epopeia nasceu e outro em que o romance conheceu sua aurora.

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Histórias e Estórias – Lições Borgeanas de História e Historiografia – Parte III

Essa é a terceira e última parte das Lições Borgeanas de História e Historiografia. Se você perdeu as duas primeiras partes, pode encontrá-las aqui e aqui.

A lição presente se dá em torno do conto Funes, o Memorioso, que integra a segunda parte do livro Ficções, intitulada Artifícios. O conto em questão data de 1942 e conta a história de Irineu Funes, homem paralítico por conta de um acidente de cavalo, que era conhecido por alguns como “cronométrico Funes” em virtude de sua habilidade de saber as horas precisamente.

A condição peculiar de Funes, porém, não advém necessariamente da sua capacidade de se orientar horariamente, pois essa é somente um corolário de uma habilidade bem mais ampla e complexa: Funes lembra-se de tudo o que viu, ouviu ou sentiu de alguma forma. Ele é incapaz de esquecer qualquer coisa! Em sua memória jazem todos os fragmentos de realidade com que ele teve a oportunidade (ou o infortúnio) de se deparar.

A certa altura, o narrador do conto, intrigadíssimo pela inusitada condição de Funes, profere a seguinte frase (que dá conta de saber a extensão e o peso conseqüente da habilidade mnemônica de Funes):

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Histórias e Estórias – Lições Borgeanas de História e Historiografia – Parte II

Dando continuidade às lições borgeanas sobre História e Historiografia, me utilizo do conto A Aproximação a Almotásim como escopo para mais uma reflexão sobre a “natureza” histórica da humanidade e as implicações dessa a historiografia enquanto ciência e enquanto saber, que ajuda a compreender também filosoficamente as peculiaridades do homem e do tempo.

A Aproximação a Almotásim foi publicado originalmente em 1936 e posteriormente, em 1944, incorporado a célebre coletânea Ficções. O conto mantém a linguagem intrincada de Borges do início ao fim. Nesse conto, Borges se aproxima mais de uma espécie de ensaio ou resenha de um livro imaginário, escrito pelo advogado indiano Mir Bahadur, cujo título é o do próprio conto em questão. Resumindo a história, Borges nos diz que depois de conflitos entre muçulmanos e hindus, o protagonista estudante, que acabara de se envolver na morte de um sujeito (não se sabe se hindu ou muçulmano), começa a peregrinar pelo Industão em busca de outras perspectivas de vida após o incidente.

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Histórias e Estórias – Lições Borgeanas de História e Historiografia – Parte I

A genialidade intrincada de Jorge Luís Borges serviu para lhe angariar um lugar entre os grandes nomes da literatura mundial, mas, além disso, pelo próprio caráter de múltiplos diálogos com diversos campos do conhecimento, fez com que as “ambivalências” de sua prosa o tornassem universal a seu modo. Aproveitando o ensejo das comemorações do seu 112º aniversário é que essa coluna (e as que a ela se seguirão) foi escrita.

Como o título anuncia, esse texto procurará combinar os meandros da literatura borgeana com algumas das peculiaridades da historiografia, não necessariamente como campo científico, mas também como experiência ontológica da existência humana. Se me permitem o trocadilho, ao contrário de bifurcar as veredas, tentarei aqui mostrar como as veredas da literatura borgeana e da natureza histórica podem se juntar, ainda que com intermitências.

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Histórias e Estórias – Sobre a tragicidade latino-americana

Acho que vocês já devem saber que a literatura latino-americana é uma das minhas preferidas, não é? Não que eu tenha lido milhões de páginas dela ou sobre ela, mas não posso me queixar de não ter encontrado ótimas obras dentro desse grande grupo: Gabriel García Márquez, Alejo Carpentier, Augusto Roa Bastos, Miguel Angel Astúrias etc.

Uma das características que mais chama a atenção (e que é um dos motivos pelos quais a literatura latino-americana mais me fascina) é a perspectiva combativa e profundamente consciente de sua condição sui generis na história da humanidade. OK, isso é algo que, mantendo em mente as especificidades, poderia ser dito de praticamente todos os grandes escritores em relação às literaturas de seus países ou às questões de seu tempo. No caso da América Latina, isso ganha contornos diferentes quando se trata da peculiaridade avassaladora e destrutiva iniciada com a chegada dos navegadores nessas terras.

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Histórias e Estórias – Do herói sem caráter ao Orfeu extático na metrópole

História do Brasil é um tópico que faz muitos torcerem o nariz, não é verdade? Imagina então se eu adicionar a esse texto mais um elemento que causa torções de nariz ainda mais violentas: Macunaíma, de Mário de Andrade? Pois bem, para todos os que leram e torceram o nariz, espero que essa coluna possa ajudar a quebrar o estigma de certo receio (quiçá ranço) que existe em relação a esses dois tópicos.

É fato que Macunaíma não é um livro daqueles mais fluídos e agradáveis que você irá ler ao longo de sua vida, porém, ele não é um clássico da literatura brasileira à toa. O livro, publicado em 1928, é, talvez, o ápice do romance modernista no Brasil e revela em suas páginas o contexto histórico do qual foi fruto através das visões e opiniões do próprio Mário de Andrade.

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