Barreira, um romance (que extrapola o) visual

Como parte da edição 2013 da Copa de Literatura Brasileira, o Posfácio tem participado das partidas através dos comentários da mesa-redonda, de modo que foi demandado que lêssemos todos os livros que estão na disputa. Posso dizer que vem sendo uma experiência muito interessante se debruçar sobre livros, histórias, discussões, reflexões e ideias que ainda estão quentes por terem recém saído do forno. Sabemos que aquilo tudo foi gestado em um período relativamente recente, e que, por essa circunscrição histórica minimamente comum, os livros trazem, por menor que seja, um conjunto de angústias, preocupações e problemas que também os leitores estão experimentando.

Leia mais

Digam a Satã que o recado foi entendido

ENTREVISTA EXPRESSA

A coleção Amores Expressos, projeto que levou escritores para diversas cidades do mundo, está no mercado editorial desde 2008 e teve, até o momento em que digito estas linhas, nove livros lançados dos 17 planejados. Tive a oportunidade de ler 7 deles – apenas J.P. Cuenca e Paulo Scott ficaram de fora da minha lista.

Pouco mais de 180 páginas me separaram de entrevistar Pellizzari, vulgo Mojo, o autor de Digam a Satã que o recado foi entendido. Esbarrei com ele durante a Flip duas ou três vezes, mas não tinha embasamento sobre seu último trabalho. Recebi meu exemplar pouco depois da nossa última microconversa e esperei até a viagem a São Paulo para folheá-lo até mais da metade sem piscar. Leia mais

A Ítaca de Paulo Scott

Existem muitos motivos para curtir o projeto Amores Expressos, e um deles, talvez não o mais nobre, está no aspecto “experimento antropológico com escritores”. Suponha que você seja enviado a um país estrangeiro, com a missão de escrever uma história: que atitude assumiria? Do forasteiro? Do nativo? Do emigrante adaptado? Dentre todos os livros do projeto, Ithaca Road, de Paulo Scott, parece ser aquele que se inclinou mais fortemente para um ponto de vista local. Seus temas não deixam de ser universais, mas estão imersos nos hábitos e no cenário de Sydney.

O que Scott nos passa, ao longo do romance, é a imagem dessa cidade à beira-mar, a riqueza e a desigualdade própria da Austrália, a menina loura que anda com a maori, a ambição econômica de pessoas que acreditam no sucesso dos seus pequenos negócios, etc. Vale a pena repetir a impressão da protagonista da sua perspectiva do terceiro andar do edifício número seis da Ithaca Road: Leia mais

O livro de Praga – Narrativas de amor e arte (Sérgio Sant’Anna)

O borbulhar do gênio

Uma leitura de O livro de Praga – narrativas de amor e arte ou porque Sérgio Sant’Anna é o maior escritor brasileiro vivo.

Vencedor de inúmeros prêmios e, bem mais importante que isso, dono de uma obra sólida que desde o primeiro livro apresenta um projeto literário de uma complexidade poucas vezes vista na literatura brasileira, Sérgio Sant’Anna é um nome certo quando se fala de literatura brasileira contemporânea. Alguns dos melhores jovens autores em atividade no Brasil, inclusive, admitem a forte influência e admiração por sua incontornável obra, que abriu muitos dos caminhos trilhados hoje pela literatura feita no Brasil.

Sérgio foi um dos escritores convidados a participar do polêmico projeto Amores Expressos, ao lado de autores representativos na nova geração da prosa brasileira, como Daniel Galera e João Paulo Cuenca. O destino de Sant’Anna foi Praga, na República Tcheca, e o volume resultante dessa viagem, O livro de Praga – narrativas de amor e arte (Companhia das Letras, 2011), surpreende, primeiramente, pelo seu formato. Não é um romance, mas também não é exatamente um livro de contos. Como o próprio título diz e o autor faz questão de salientar em entrevistas, são narrativas, que guardam sim um centro comum e uma determinada linearidade, mas que de certo modo também são independentes entre si.

Leia mais

Do fundo do poço se vê a Lua (Joca Reiners Terron)

Do fundo do posso se vê a Lua, de Joca Reiners Terron, é parte da coleção Amores Expressos, da Companhia das Letras. A coleção tem uma ideia bastante interessante: vários escritores foram enviados para diferentes cidades do mundo, com a contrapartida de escreverem histórias de amor passadas nesses lugares. A Terron, por exemplo, coube a capital egípcia, Cairo.

E é nesse cenário quase mítico – ao menos no imaginário ocidental – que chega a um desfecho uma história de amor fraterno bastante complexa. Nascidos em São Paulo, William e Wilson são gêmeos idênticos cuja relação sempre foi complicada, até que foi abruptamente interrompida – e, vinte anos depois, é retomada de modo enigmático.

A mãe dos gêmeos faleceu quando estes nasciam – os perigos do parto já avultavam-se durante a gestação, mas perseguida pelos militares, ela não ousava ir a um hospital. Por conta disso, não apenas a mãe dos dois, conhecida como Cleópatra, apesar de esse provavelmente não ser seu verdadeiro nome, morreu, mas William sofreu de hipóxia perinatal, o que lhe legou um desenvolvimento intelectual aquém do de Wilson. Excetuando-se isso e o fato de Wilson desde cedo identificar-se como mulher, não existem diferenças entre os dois. Leia mais

Estive em Lisboa e lembrei de você (Luiz Ruffato)

Estive em Lisboa e lembrei de você é um dos melhores exemplares da coleção Amores Expressos e, também, um dos mais isolados do tema principal: o amor numa cidade estrangeira. Não que o amor não ocorra, mas é quase imperceptível e efêmero se levar em consideração que o mais pertinente é o estilo adotado por Luiz Ruffato para transcrever a história de Sérgio Sampaio, personagem-narrador, entrevistado em 2005, sua vida no interior de Minas e a viagem para poupar dinheiro em Portugal.

É importante frisar que por ser um livro miúdo, 88 páginas, a história contada exalta detalhes em flashbacks, pensamentos e fluxos prosaicos de palavra falada sem precisar se aprofundar e criar subtextos.

Leia mais

O Filho da Mãe (Bernardo Carvalho)

Um amor que nos é imposto desde o nascimento pode ser considerado um amor verdadeiro? Ou melhor, será possível para esse amor imposto, e “natural”, nos salvar de toda a desgraça que o mundo nos reserva, seja em períodos de guerras ou em paz plena? Um dos pontos mais fortes da narrativa de O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho, reside na questão entre abandono e encontro. O encontro de uma mãe e um filho desencadeia os mais diversos enredos dentro de uma mesma história ambientada numa guerra. Leia mais

Cordilheira (Daniel Galera)

Um dos pontos geralmente abordados numa análise literária é o cunho autobiográfico. Os traços que indicam se aquele personagem tem relação com seu criador, se os seus traumas, suas aventuras, suas alucinações, tudo aglutinasse dentro do autor que resolveu expor no papel. Há casos sim de traços autobiográficos em diversos grandes livros da literatura, de Joyce a Hesse, que podem aflorar as mais fortes discussões de qual traço é o verdadeiro, de onde partiu a ideia para escrever e transformar uma vivência em escrita – será que foram inconscientes ou totalmente planejados? O ponto sensível de Cordilheira, de Daniel Galera, é intensificar a relação de autores e personagens, quando um começa e outro termina mesclando com uma obsessão plurilateral. Leia mais

O Livro de Praga – Narrativas de Amor e Arte (Sérgio Sant’Anna)

Viajar para o exterior, ainda mais na condição de mochileiro, é com certeza uma aventura quando planejada– ao menos na mente de jovens no hiato entre fim de faculdade, fim de colégio, estágio, etc. – conhecer novos lugares, pessoas diferentes e para se dar bem (leia: fazer sexo com estrangeiras que “adoram” brasileiros). A Coleção Amores Expressos enviou diversos escritores para várias cidades do mundo, cada um ficaria um mês e a partir dessa vivência deveria escrever uma história de amor. Alguns dos autores criaram personagens nascidos no país em que visitaram, outros fizeram protagonistas brasileiros fugindo ou conhecendo um amor. O Livro de Praga – Narrativas de Amor e Arte fugiu levemente à regra: Sérgio Sant’Anna compôs um escritor que é enviado a Praga para escrever um livro que posteriormente poderia virar filme. Contudo, os amores existentes nesse exemplar da coleção, lançado pela Companhia das Letras, são efêmeros, sexuais e fetichistas. O desenvolvimento do livro, por mais que se ligue em pequenos pontos, é, ironicamente, uma infâmia ao personagem principal. Ele adquire fora de seu país uma fama soturna, envolvendo morte e exibicionismo. Leia mais

Nunca Vai Embora (Chico Mattoso)

Quantas pessoas em Cuba realmente gostam do governo e nutrem certa admiração para o partido de Fidel Castro? Quantas pessoas contam com orgulho os dias de revolução e de ajuda da URSS? Em certo momento a pergunta “E o Fidel?” vem a tona na narrativa do novo romance de Chico Mattoso, Nunca Vai Embora, sexto volume da Coleção Amores Expressos, lançado pela Companhia das Letras no começo de Maio. Essa pergunta é quase retórica, cubanos e moradores da ilha vindos de fora não respondem tal questão (a não ser com um silêncio completo seguido de uma risada abafada) ou mesmo refletem para responde-la. Através dessa simples citação é possível descrever os cubanos que Mattoso quer mostrar. Mais do que o país com uma história mundialmente conhecida de luta contra ditadura e, coincidentemente, ainda vive em uma e seus admiradores não são filhos de uma salvação, mas de um esquecimento e paranóia. Leia mais

Do fundo do poço se vê a lua (Joca Reiners Terron)

Amores Expressos é uma série que levou diversos escritores para as mais variadas metrópoles do mundo e a partir dessas viagens, esse laboratório, os autores devem criar um romance situado no ambiente em que estiveram. Dessa ideia surgiram os livros, todos lançados pela Companhia das Letras, Cordilheira (Daniel Galera), O Filho da Mãe (Bernardo Carvalho), Estive Em Lisboa e Lembrei de Você (Luiz Ruffato), O único final feliz para uma história de amor é um acidente (J.P. Cuenca) e Do Fundo do Poço Se Vê a Lua (Joca Reiners Terron), a história de um homem que desembarca na arenosa Cairo em busca de seu irmão gêmeo. Leia mais

O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente (J.P.Cuenca)

MADE IN JAPAN

Há toda uma geração que cresceu conhecendo mais sobre um país do outro lado do globo do que a respeito da cultura brasileira. Jovens que sabem mais sobre pokémons do que sobre o Curupira, mais sobre ninjas e samurais da Era Meiji do que sobre a história recente do Brasil. Cresceram adorando o Japão.

Um livro nas mãos da juventude

Eles provavelmente darão uma chance ao novo romance de João Paulo Cuenca, chamado O único final feliz para uma história de amor é um acidente (Companhia das Letras, 2010). O que não é pouco para tais leitores, literariamente acostumados a romances que venderam milhões exemplares antes de serem traduzidos.

Leia mais