Melhores Leituras 2014 – II

A ressaca literária está próxima do fim, já deu para perceber. Parte disso se deu com a consciência de que o problema não se restringe à relação com os livros – Simone me mostrou o link de um texto parecido com o meu, mas bem mais sincero sobre algumas questões. Outra parte é devida à retomada de um ritmo minimamente satisfatório de leitura – Middlesex, de Jeffrey Eugenides, é a paixão da vez.

Se descobrir novas (e boas) leituras é parte importante para a cura, nada melhor do que pedir dicas aos amigos. Como vocês já conferiram as melhores leituras de alguns escritores amigos do Posfácio, chegou a hora de perguntar quais foram as de alguns dos membros de nossa equipe. Transcrevo aqui as respostas deles e, no final, pus as minhas. Leia mais

Verão Infinito #6 – Semana 6

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Verão Infinito #0

Verão Infinito #1

Verão Infinito #2

Verão Infinito #3

Verão Infinito #4

Verão Infinito #5

Acredito que, até o momento, ninguém te disse que Graça infinita é um livro fácil. Difícil aí é ver, então, o que é um livro fácil. Talvez nenhuma obra literária possa ser considerada realmente fácil. Apenas aprendemos a ler um código de um determinado modo. Uma série de escritores tenta seguir esse código e conseguimos nos entender. Ao menos até certo ponto. Esse código (que pode ser chamado de língua, afinal de contas) tem seus limites bem acertados entre nós, ou melhor, entre aqueles de nós que se sentem no poder para acertar esses limites.

Infinite Jest, digo, o livro em inglês mesmo, foge dessa regra. Ele nos engana. Parece ser fácil, mas não por seguir um esqueminha, aquele esquema que nos faz entender O pequeno príncipe, por exemplo. A língua, o inglês mesmo, parece quase não literário de início. Estamos lendo apenas relatos muito, muito rebuscados de algumas pessoas em um futuro nada distante, que nem pode ser chamado de futuro direito. As ideias mesmo de anterioridade e posterioridade que a língua em geral nos dá parecem estar ali no texto, parece que vamos entender as coisas uma após a outra, como numa reação em cadeia. Hal Incandenza faz algo que deriva em outra coisa, e assim por diante. Mas não, Infinite Jest não funciona bem assim. Leia mais

Verão Infinito #5 – Semana 5

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Verão Infinito #0
Verão Infinito #1
Verão Infinito #2
Verão Infinito #3
Verão Infinito #4

Talvez seja hora de pararmos um pouco e pensarmos no que estamos fazendo. Por que estamos lendo Graça Infinita da maneira como estamos lendo? Por que nos reunimos aqui com dúzias de outros leitores, paramos a cada duas páginas pra consultarmos referências em enciclopédias virtuais organizadas por fãs, discutimos de madrugada pelo Whatsapp a genialidade da nota 304, tiramos fotos engraçadinhas da capa e curtimos as que os outros sobem no Instagram? Por que ninguém parece capaz de simplesmente ler a porra do livro de capa a capa, fechá-lo e guardá-lo na estante, como fazemos com tantos outros livros? Leia mais

Melhores Leituras 2014

Ano após ano mantemos a nossa tradição de publicar as melhores leituras do último ano no dia do aniversário do Posfácio. A pergunta é simples: “Qual o melhor livro que você leu esse ano?”.

A resposta não é complicada, não é um jogo de cena. A escolha pode ser de um lançamento de ficção ou não ficção, pode ser um clássico, um pulp, o livro de um amigo, autor desconhecido não publicado no Brasil.

Afinal, queremos saber o que te marcou nas leituras de 2014.

Nesta primeira parte, vocês conferem o que nossos convidados leram durante o ano:

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Santa Strauss

“Não é todos os dias que o etnólogo encontra uma ocasião tão propícia para observar, em sua própria sociedade, o crescimento súbito de um rito, e até de um culto. – p. 11”

O Natal já passou, mas, de fato, continua entre nós, um espectro que marca o calendário anual como horizonte a ser conquistado, em meio a enxurrada de comemorações cristãs que pululam por todo o ano. Por isso, ainda vem a calhar um pequeno texto do renomado antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009), um dos pilares do estruturalismo e pai da antropologia uspiana, que traz de forma sucinta e didática uma nova perspectiva à celebração natalina e à figura do Papai Noel. Leia mais

Paradiso latino-americano

Cotejar uma obra literária que é tida como a maior expressão do barroco latino-americano é uma tarefa que exige um fôlego de análise distinto, pois faz-se necessário ir além daquilo que caracteriza o barroco “somente” enquanto expressão estética. É preciso penetrar (ainda que num escopo talvez pouco ambicioso dada a envergadura do livro em questão) nos sentidos históricos e, quiçá, filosóficos de uma tal empreitada literária.

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Verão Infinito #4 – Semana 4

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Verão Infinito #0
Verão Infinito #1
Verão Infinito #2
Verão Infinito #3

 

Nós precisamos falar sobre Kafka. Kafka, Franz Kafka, aquele que viveu em Praga e era ao mesmo tempo alemão, tcheco, judeu e nenhuma dessas coisas. Aquele que certa manhã acordou de sonhos intranquilos e descobriu que havia se transformado em um inseto monstruoso. Não, pera, esse é um dos seus personagens. Ou não?

Toda a literatura de Kafka é construída em espelhamentos entre ele, autor, você, leitor, e seus personagens. Conforme ele avança na sua carreira e em seus temas, os personagens passam a cada ver mais não serem ninguém e serem o próprio Franz Kafka: Gregor Samsa se torna Joseph K. que se torna K. Leia mais

Verão Infinito #3 – Semana 3

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Verão Infinito #0
Verão Infinito #1
Verão Infinito #2

Parece que agora as coisas estão finalmente tomando seu lugar. O que não deixa de ser estranho, já que estamos nos aproximando da pagina 300 e só agora podemos definir uma espécie de HORIZONTE DE EVENTOS discernível para a trama de Graça Infinita. E essa foi uma semana de trama, com certeza. Como já deu provavelmente para notar, as informações relativas à história do livro se encontram dispersas, escondidas em parágrafos gigantescos em meio a outras milhares de informações, nomes, siglas, gírias. É preciso se embrenhar nesses parágrafos, tentar silenciar um pouco o ruído pra tentar chegar nas informações relevantes. Mas como saber quais são as informações relevantes? Como diferenciar aquilo que importa do que pode ser deixado de lado? Seria mesmo trama o que há de mais relevante no livro? Como vocês já devem ter notado, nada em Graca Infinita é por acaso, e esse tipo de estrutura reflete uma gama tão grande de preocupações de DFW que pode ser facilmente classificado como um tema: como diferenciar ruído de informação, o que fazer com o material coletado, como lidar com esse material bruto da realidade. O bloco de dados está ai, cabe a nós leitores darmos forma a ele. Isso diz respeito a uma compreensão de realidade em que o mundo é um agregado caótico e disforme, totalmente sem sentido. O único jeito de viver numa realidade assim constituída é tentar inventar formas que de alguma maneira organizem esse caos, criem sentidos para que nossa existência seja suportável e nos faça acordar todo dia de manhã: estruturas, comunidades, explicações, teorias, narrativas. A tristeza da coisa toda é a) saber que essas coisas são todas temporárias e inventadas, pois o universo não tem sentido, e b) que não foram criadas pela gente, já estavam prontas quando a gente nasceu. Talvez o grande teto seja se deparar com o caos constitutivo do mundo e notar que a única coisa efetivamente imutável é a nossa necessidade de criar estruturas para lidar com ele, o que é de certa forma meio desesperador, até porque não importa efetivamente QUAL a explicação ou estrutura, mas sim como a gente a usa e qual o seu resultado. The meaning is the use, diria o austríaco. Leia mais

A dama do lago e seu caval(h)eiro

Em uma resenha anterior, na qual falei sobre O longo adeus, comentei que Philip Marlowe é um dos detetives mais conhecidos da literatura e, também, que seu método de investigação, no que concerne a entrevistar os suspeitos, talvez seja sua grande marca no que tange à literatura policial. A capacidade de, numa conversa, fazer uma incoerência, uma inexatidão ou uma mentira vir à tona é algo realmente digno de nota nesse personagem, e o esmero de Raymond Chandler em aguçar as conversas e dar a todas as falas entrelinhas acusatórias, agressivas ou sarcásticas é o que torna cada diálogo de seus livros algo muito divertido.

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Verão Infinito #2 – Semana 2

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Verão Infinito #0
Verão Infinito #1

Parabéns. Se você está lendo este texto, espero eu que seja porque já chegou na página 186 do Tijolo-Laranja-Mais-Belo-Do-Mundo. Quase 200 páginas vencidas e você já pode se orgulhar daquele status de 16% de livro lido na sua rede social literária favorita. Como bem disse a Simone no texto zero desta nobre maratona, “sofrimento cria caráter”.

Como tenho uma quedinha por assuntos políticos, aproveito para abrir este texto lembrando de um fato que pode ter passado despercebido para muitos leitores, principalmente porque a tal referência está escondidinha no meio de um travessão perdido no meio de um calhamaço de explicação de Michael Pemulis a respeito do seu lucrativo negócio urinário na Academia de Tênis Enfield. Leia mais

Verão Infinito #1 – Semana 1

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Verão Infinito #0

Uma semana voou e vocês nem sentiram 90 páginas, fala sério. “Mas, Felippe, foram mais de 100 se contarmos todas as notas de rodapé.”

Cri, cri.

Nessa primeira semana de Verão Infinito – e hoje começa realmente o verão no Brasil – muita gente conheceu pela primeira vez alguns personagens de Graça Infinita e certos temas que serão explorados ao longo da narrativa. Leia mais

Pagu para além da vida e obra

Em termos de lançamentos literários, acredito que 2014 foi um ano realmente peculiar. A preocupação com a reedição parece começar a crescer no meio editorial brasileiro, ainda que tenhamos muitas obras (mesmo!) fora do mercado há décadas, limitadas a exemplares por vezes caros demais nos sebos. Felizmente, como disse, 2014 trouxe algumas reedições pelas quais, pessoalmente, nem esperava mais, como Pagu: vida-obra, de Augusto de Campos, lançada recentemente pela Companhia das Letras.

Patrícia Galvão, de apelido Pagu (apenas um de seus apelidos e pseudônimos), poderia ser um nome natural aos ouvidos dos brasileiros, ao menos dos que leem mais literatura nacional, mas nem sempre é. Participante do movimento modernista em São Paulo desde seus primeiros tempos, apesar da diferença de idade em relação à geração, ela se destaca para mim por duas razões básicas: pela atuação fortemente crítica e política e, sim, pelo fato de ser mulher e querer ser reconhecida como tal. Por isso, Pagu deve ser compreendida por inteiro, para além de uma mera cronologia de acontecimentos ou de uma bibliografia comentada. Pagu é muito além disso. Leia mais