Não fosse isso e era todo um Leminski

Difícil falar de Leminski sem falar de sua persona. O mesmo drama aqui relatado sobre Ana Cristina Cesar, mas pior. É fato que Paulo Leminski (1944-1989) é conhecido por sua marginalidade, por sua boemia, por sua poesia que cativa até mesmo aqueles que sempre dizem não gostar de poesia. Também sempre se lembra de sua naturalidade, curitibana como a deste que vos escreve, o que também faz com que seus leitores não paranaenses atribuam-lhe todos os estereótipos ligados à cidade. Talvez ele até mesmo contribua para que isso esteja atrelado a sua arte. Talvez não. O que é preciso é entender como sua poesia parece se manter tão bem sistematizada mesmo sob julgamento daqueles que não a apreciam. Ou melhor: por que todos leem Leminski e conseguem defini-lo?

Para chegar a resposta, esqueçam, é claro, daquele Leminski à Bukowski. Falamos de um poeta que ainda é, arrisco eu, pouco lido realmente, por inteiro. Por aí, pelas redes sociais, pelos livros didáticos, citam-se somente os mesmos versos, geralmente seus autointitulados relaxos ou um ou outro poema de livros posteriores, principalmente aqueles ainda publicados em vida. Não se cita, por exemplo, nada do Catatau (1975), sua obra prosaica-poética, multifacetada e experimental, ainda a ser descoberta até pela maior parte da crítica literária nacional. De seus ensaios nem se fala, mesmo sendo reeditados recentemente pela editora da Unicamp (Ensaios e anseios crípticos). Que Leminski podemos encontrar, por exemplo, em Toda poesia (2013), reunião de sua poesia pela Companhia das Letras? Haveria todo um Leminski ainda a se ler? Leia mais

Ana Cristina Cesar, com direito à panorâmica

Fala-se sempre de Ana Cristina Cesar, Ana Cristina, Ana C. por aí. Nem sempre se fala da poeta em sua completude, com base em sua obra por inteiro. Há boas razões para isso: a falta de circulação de seus livros, especialmente das edições antigas como A teus pés (Brasiliense, 1982); o reforço constante na imagem de sua persona, da poeta suicida, como se fosse a Sylvia Plath brasileira (o que também reduz a poeta americana a um estereótipo); a negligência de parte da crítica literária até anos atrás, que ainda mantinha marginalizada a poesia marginal, como registro da época do mimeógrafo. Espera-se que com Poética, compilação de sua poesia completa recém-lançada (Companhia das Letras, 2013), esse cenário mude. Seus anexos e seu posfácio, da professora Viviana Bosi, certamente auxiliam na compreensão desse universo pelo leitor. Leia mais

A poesia dos Passos

Praticar poesia não é tarefa fácil. Ela parece alimentar-se da espontaneidade em seu mais puro espírito, mas quais significados planejadores não se escondem por detrás da palavra “metrificação”? Ao mesmo tempo, se concebida somente em termos de números de sílabas, função de rimas e disposição de versos e estrofes, certamente perde uma das suas substâncias mais essenciais.

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Pequenas escrituras de Raduan Nassar

Olhando para aquilo que Raduan Nassar produziu no período em que se dedicou à literatura, não é possível deixar de lamentar – respeitosamente – sua decisão de não mais escrever. Depois de ter nos presenteado com os terrivelmente belos Um copo de cólera e Lavoura arcaica, Nassar decidiu se dedicar integralmente à agricultura, se recolhendo em sua fazenda em São Paulo.

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Extra! Sorteio exclusivo de alface fresquinha!

Na semana passada, o Posfácio entrou em clima de feira livre, com o especial Semana do Alface. Você foi alertado de que o consumo de chá de alface pode causar melancolia e solidão, escolheu a fórmula perfeita para temperar a sua alface, descobriu 5 formas criativas de fazer Noites de alface, de Vanessa Barbara, durar mais e foi surpreendido com dados científicos que corroboram a tese de que os velhinhos sofrem mais do que as velhinhas com a viuvez – uma das coisas maravilhosas que só o Gigio seria capaz de escrever. Leia mais

Um mundo de baiacus lá fora

Não é comum encontrarmos histórias em que o protagonista seja um velhinho meio ranzinza e antissocial, como o Otto de Noites de Alface. Ranzinza e antissocial, sim, mas simpático. Mesmo depois da morte da esposa, Otto não pede consolo aos vizinhos – nem aos leitores, o que no entanto de nada adianta para conter nossa vontade de nos insinuarmos para descobrir, despistadamente, a quantas anda. Aprovamos quando ele deixa que Nico, o enciclopedista das bulas, entre na casa amarela, e fazemos que sim com a cabeça quando ele decide atravessar até a casa de Teresa para lhe entregar a carta extraviada. Afinal, nos envolvemos nesse suspense que percorre o livro desde a primeira página: Otto se recupera do luto?

Não é comum também encontrarmos pessoas como Otto na vida real. De acordo com os dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, existem no Brasil, entre os viúvos, quase cinco mulheres para cada homem. O padrão se repete em outros países: são sempre mais raros os casos de homens vivendo sozinhos depois de perderem a esposa. As causas dessa disparidade são conhecidas: as mulheres vivem mais, casam-se em média com homens mais velhos e têm uma menor tendência a se unirem novamente em matrimônio. Mas apesar da menor quantidade absoluta de velhinhos viúvos, pesquisas feitas na Europa e nos EUA apontam para um fato inesperado em relação à viuvez: os homens sofrem mais.1

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  1. Stroebe, M., Stroebe, W., & Schut, H. (2001). Gender differences in adjustment to bereavement: An empirical and theoretical review.

5 formas criativas de fazer um bom romance durar mais

Uma verdade incontestável: tudo que é bom dura pouco. Sim, eu sei que Longe da árvore – aquele calhamaço maravilhoso de 1056 páginas, escrito por Andrew Solomon – vai demorar horrores para ser lido, mas o fato é que toda boa leitura parece durar menos do que deveria.

Mesmo Guerra e paz dura pouco.

Mesmo Cloud Atlas dura pouco.

Mesmo Ulysses… peraí, não vamos exagerar. Leia mais

Como você tempera a sua alface?

Gosto dessas resenhas longas-mas-cheias-de-subdivisões porque você pode ler um pouco e deixar para ler o resto depois (e se lembrar de onde parou), ou escolher só ler uma parte ou ler na ordem de tamanho dos parágrafos ou preferir ler todas as notas de rodapé antes de tudo para então decidir por onde começar ou, no caso, só ler a seção intitulada com a maneira de sua preferência para temperar alface.

Um mundo de decisões a serem feitas, pequeno gafanhoto. Como um imenso buffet de saladas. Leia mais

A arcaica lavoura de Nassar

Uma impressão similar à que tive ao ler Um copo de cólera tive também ao ler Lavoura arcaica: a narrativa de Nassar a todo o tempo parecia me remeter à prosa rascante de Franz Kafka. Essa percepção, sobre a qual já falei na resenha que escrevi sobre o primeiro livro, foi redimensionada no segundo livro, pois a história ali contada é de tal maneira límpida e solene, que a catarse, a tragédia, aparece como um golpe desferido após uma longa gestação de prazeres sinestésicos. Não à toa é tão fulminante e desconcertante, é “um machado para quebrar o ar de gelo que há dentro de nós.”

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Posfácio na IX Fliporto – O jogo da vida e do amor

O clássico seria prestigiar Ana Maria Machado. O cult seria assistir a uma entrevista de Zygmunt Bauman. Mas como a cobertura posfaciana da Fliporto estava num clima “gente como a gente”, decidi que seria de bom tom comparecer à última mesa do Congresso Literário do sábado, terceiro dia do evento. Nela, Maitê Proença e Francisco Azevedo foram chamados para conversar sobre o tema “O jogo da vida e do amor: as crônicas e as narrativas do que somos e sonhamos”. O nome da atriz e escritora pareceu atrair o público: segundo a assessoria de imprensa da Festa, em informativo que ressalta o recorde de público do evento, 1 a mesa em questão foi um dos destaques no quesito ocupação de cadeiras, ao lado de Pilar del Río e Laurentino Gomes. Leia mais

  1. A Fliporto conta com uma programação paralela ao Congresso Literário com tantas opções que eu não daria conta de conferir sozinho

Um transbordante copo de cólera

Acho que seria auspicioso iniciar esta resenha sob a sombra daquela famosa frase de Kafka, na qual ele diz que as obras literárias têm de nos atingir como uma tragédia. Confesso que essa frase foi uma espécie de mantra que entoei ao longo de toda a leitura de Um copo de cólera (1978), novela de autoria do brasileiro Raduan Nassar.

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As más-ótimas ideias

Se uma pessoa se meter à curiosidade e ouvir a conversa da mesa ao lado, ou das rodas de escola, e vai saber de onde mais, talvez sinta as orelhas amortecidas por planos que nunca vão deixar de ser planos. Você já deve ter ouvido uma dessas promessas-anestésicas como “ largar tudo e vender coco na praia”, “ir pra uma rave e acordar com uma tatuagem”, que acabam ficando pra outra hora até que nunca mais. O novo romance da Carol Bensimon, Todos Nós Adorávamos Caubois, trata exatamente disso.

Cora e Julia falavam sobre uma viagem pelo interior do Rio Grande do Sul. Elas passariam por todas as cidadezinhas desconhecidas e com nomes engraçados, sem roteiro ou data pra voltar. O plano era uma faísca, que acendia e apagava na mesma velocidade, até que Julia se muda para Montreal enquanto Cora vai estudar moda em Paris. Anos depois, elas têm a chance de realizar essa viagem e vão.

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