#leiascifi2015 – O Homem do Castelo Alto #3

por Kim Doria

O assunto é ficção científica e este livro de Philip K. Dick sintetiza bem uma das características mais corajosas do gênero: o aspecto experimental (tomado aqui nos sentidos artístico e científico do termo) que a ficção assume diante de nossa realidade. O homem do castelo alto parece girar em torno de uma experiência sobre os rumos da história, com uma narrativa que se desdobra à medida que investigamos do que é feita a sociedade. Coragem parece um adjetivo justo, tanto pela ousadia de fazer perguntas provocativas sobre os rumos da história (ressaltando inclusive os aspectos narrativos em comum entre história e ficção) quanto pela consciência ética de assumir a responsabilidade política que o escritor tem diante do mundo ao seu redor.

Da mesma forma que um cientista conduz experimentos em torno de hipóteses, o escritor busca observar o funcionamento da sociedade (em aspectos sociais, culturais, econômicos) em uma versão alternativa de nossa realidade movida por uma questão que parece estar por trás dos maiores clássicos do gênero: “e se..?”. Este é o princípio por trás de livros como 1984, Eu, robô, Admirável mundo novo, Farenheit 451, Planeta dos macacos, dentre outros bons exemplos… Na literatura contemporânea, temos a obra de China Miéville (um bom exemplo é A cidade & a cidade, lançado pela Boitempo no ano passado) e a Trilogia de Martes, de Kim Stanley Robinson.

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#leiascifi2015 – O Homem do Castelo Alto #2

Essa semana começamos efetivamente a discussão sobre o livro. Para quem ainda não começou a leitura, não há motivos para pânico. Vamos passar o mês inteiro com ele, o cronograma dá tempo mais do que suficiente para nos alcançar (e possivelmente até ultrapassar). Vamos seguir a divisão abaixo:

Semana 1: Introdução sobre o autor
Semana 2 – 30/03/2015: páginas 1 a 73
Semana 3 – 06/04/2015: páginas 74 a 150
Semana 4 – 13/04/2015: páginas 151 a 210 (com anúncio do próximo livro e do local do encontro presencial!)
Semana 5 – 20/04/2015: páginas 211 a 294 Leia mais

#leiascifi2015 – O Homem do Castelo Alto (ou Nunca te li, sempre te amei) #1

Por Arthur Tertuliano e Simone Vollbrecht

E aí, vamos começar mais uma leitura coletiva? 🙂

Como vocês já sabem, este ano vamos focar o Clube de Leitura do Posfácio (recém-inventado) em torno do projeto #leiascifi2015. O gênero tem sido cada vez mais abordado em filmes, séries e jogos, mas ainda sofre um preconceito ridículo na literatura. Lentamente essa resistência a aceitar obras que fujam do realismo duro mas não cheguem à mágica e à fantasia total está diminuindo. Um exemplo que vimos recentemente foi a discussão gerada pelo post dos livros mais populares de sci-fi, com levantamento do Gigio.

E por isso estamos chamando: venham ler com a gente!

Vamos iniciar em grande estilo: O homem do castelo alto, do maravilhoso Philip K. Dick. A escolha for por vários motivos. Primeiro, PKD é um dos autores mais interessantes da ficção científica. A vida pessoal dele já seria motivo para um clube de discussão à parte, envolvendo desde a irmã gêmea que morreu na infância (mas com a qual PKD continuou a interagir), uso pesado de anfetaminas para conseguir escrever (será que ajudou na criatividade dele?), experiências semi-pseudo-talvez religiosas ou alienígenas e até suspeitas de espionagens pelo FBI. Ele é a fonte de diversas obras incríveis adaptadas para o cinema e a TV, e poucos escritores são tão conhecidos, mesmo sem ser lido, quanto ele. Como disse o Tuca, “nunca te li, sempre te amei” – PKD parece ser campeão nessa categoria. Leia mais

Herberto Helder se foi, mas fica

“Se um dia destes parar não sei se não morro logo” é o começo de um dos poemas do último livro de Herberto Helder, falecido nesta segunda-feira, em Cascais, Portugal. Com certeza, foi dos escritores mais prolíficos e valiosos da língua portuguesa, não só da sua terra natal. É daqueles que não ficou só em seu mundo próprio, entre os seus, na comodidade. Viveu por aí, por bastante tempo.

Não ficou onde nasceu, em Funchal, na ilha da Madeira. Foi às guerras coloniais, onde se acidentou e combateu a violência, foi a Lisboa para estudar, onde começou dois cursos e nenhum terminou, foi à literatura toda, onde ficou. Quando resolver parar de vez com toda essa movimentação, foi-se, como no poema de A morte sem mestre, livro lançado no ano passado, infelizmente ainda indisponível em terras brasileiras, como quase toda a obra poética do autor, com a exceção de O corpo, o luxo, a obra Ou o poema contínuo. Leia mais

Verão Infinito #11 – Semana 11

por Felippe Cordeiro e Simone Volbrecht

Anteriormente no Verão Infinito… todas as semanas.

A derradeira semana do Verão Infinito não é para os fortes, não é para os adiantados, tampouco para os atrasados. Não é para ninguém. Confuso? Não. Como bem apontou a Camila von Holdefer1 na Semana 7: “O que significa, hoje, iniciar uma leitura coletiva de um livro com fama de difícil, uma leitura coletiva que não usa a autoironia como escudo contra a insegurança? Uma leitura coletiva que não finge tédio e não aponta o que há de cínico no romance?”

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  1. Resenha da Camila está em seu blog

Tempos Difíceis

É muito provável que nenhum escritor tenha criado um acervo tão grande de histórias tristes e personagens detestáveis quanto Charles Dickens. Antes de abrir um livro dele é preciso se preparar para órfãos mal tratados, amores trágicos e a certeza de que nada, nunca, realmente acaba bem.

É possível que um menino pobre torne-se rico, mas perderá seu grande amor. Ou que um órfão seja adotado por um benfeitor amável, mas uma garota de 17 anos precisou morrer para isso. Em Tempos difíceis, a protagonista pode encontrar afeto e livrar-se de sua mente perturbada, mas perderá o irmão e o homem por quem se apaixonou, e presenciará a morte de um homem bom e honesto.

Contudo, talvez esse seja um dos romances menos trágicos de Dickens. Ao contrário de livros como David Copperfield e Grandes esperanças, sua história não se espalha por anos e ele não conta sobre o amadurecimento de um personagem. Tempos difíceis tem seu tempo e espaço concentrados e parece mais uma crítica de costumes, a exemplo de Uma canção de Natal.

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Verão Infinito #10 – Semana 10

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Verão Infinito #9

Ok, não tem mais jeito. Está acabando. É o fim.

Essa semana se divide entre nossos dois pseudoprotagonistas, cada um em situação bizarra própria de não conseguir se comunicar com quem está em volta.

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Os livros mais populares da ficção científica

Pra dar continuidade à ideia do Tuca de #leiascifi2015, resolvi montar uma lista com os livros mais queridos, mais amados, aqueles que recebem todos os bilhetes em forma de coraçãozinho, os mais populares da ficção científica.

Não significa que sejam os melhores (e quem poderia dizer quais são os melhores?), mas apenas aqueles que acabaram acolhidos, por um motivo ou por outro, pela memória do maior número de leitores nas últimas décadas. Ainda assim, dá para acreditar que exista nessas obras mais populares um ou outro ingrediente especial.

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Verão Infinito #9 – Semana 9

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Verão Infinito #8

 

Olá, sobreviventes!

Faltam duas semanas para o final do Verão Infinito e um pouco mais para o final do verão real. É o momento perfeito para perceber que

1) esse tijolo está chegando ao fim e você sobreviveu a ele; e

2) você poderia estar na praia, aproveitando o verão, tomando cerveja, curtindo o carnaval ou algo semelhante, mas estava lendo este livro. Você poderia estar trepando, mas tinha um cronograma de leitura a cumprir. Então é bom que DFW não estrague o final, não é mesmo? Leia mais

Verão Infinito #8 – Semana 8

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Tem essa guria – chamemo-la S. Ela está no metrô quando se depara com um rapaz – chamemo-lo M – que desafia algumas leis da física a fim de apoiar e conseguir ler o calhamaço que tem em mãos. Se a S é negado o prazer de investigar qual seria o título do romance – este não consta na capa, mas, em letras garrafais brancas contra o fundo laranja, no corte da cabeça e do pé do volume – ao menos ela tem a oportunidade de dizer ao moço o quanto gosta daquele livro, o que faz de imediato. M, ao travar contato com moça tão simpática, se dá conta de que o esforço não foi em vão – ele planejava deixar o exemplar físico numa estante enquanto prosseguia na leitura no kindle. S lhe fala de um clube de leitura virtual que se iniciará em breve e – conversa vai, conversa vem – essas duas pessoas descobrem que têm um amigo em comum: este que vos fala. Leia mais

Impressões sobre a poesia de W. H. Auden

O britânico W. H. Auden é sempre referido como um dos grandes nomes da poesia do século XX, porém acredito ser desconhecido ainda em terras brasileiras. O motivo é o mesmo pelo qual a maioria dos autores não é lido por aqui: falta de tradução ou de edição. Auden, no caso, é mais facilmente acesso pelo volume bilíngue de poemas editado pela Companhia das Letras, de tradução conjunta de José Paulo Paes e João Moura Jr. Trata-se de uma recolha interessante para conhecer um poeta em suas diversas facetas, poeta que oscilou tantas vezes de interesses quanto de maneiras de se comportar diante dos fatos da vida.

Em termos históricos, Auden viveu em uma época particularmente interessante, de muitas atribulações para a Europa. Além disso, nunca se portou como um cidadão estritamente europeu, já que viveu e passou por diversos países, sempre atuando de forma enfática no contexto local. Nascido em 1907, Auden se mudou para Berlim em plena República de Weimar, a fim de fugir da Inglaterra conservadora. Também atuou no lado republicano da Guerra Civil Espanhola e viajou pelo Extremo Oriente antes de se exilar nos Estados Unidos em fuga da Segunda Guerra Mundial. Tudo isso sempre acompanhado do também escritor Christopher Isherwood, seu amigo e eventual amante. Toda essa experiência de vida, é claro, é fundamental para entender as variações na matéria de sua poesia. Leia mais

Verão Infinito #7 – Semana 7

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549-638.

As coisas andam depressa.

É improvável que alguém que tenha chegado até aqui vá abandonar o livro em seguida.

Receio de desperdiçar o esforço?

Não.

Digamos que você tenha embarcado em Graça infinita e se sentido meio perdido nos primeiros instantes. Normal. O começo da viagem pode ser meio desagradável. Pode ser aterrador. Mas aí as paisagens começam a ficar conhecidas — não, todavia, de um jeito monótono. Os lugares que você vê pelas janelinhas não são previsíveis ou cansativos. Não têm relação com os cenários que você enxergou a vida toda. O que mudou? Você não está se sentindo tão desconfortável. Só isso. Você concordou em se deixar levar porque conseguiu calcular os riscos e enxergar o objetivo. Você não está mais assustado. Você começou a curtir a viagem. Você perdeu o medo. Você não está mais olhando apavorado ao redor, tentando adivinhar aonde diabos tudo isso vai levar. Você não tem mais vontade de saltar e sair correndo. É daqui para a última parada. E você intui mais ou menos qual vai ser a última parada. O que, acredite, é bom. Leia mais