Sobre a Escrita, de Stephen King

Deixando claro desde o início: Sobre a escrita é minha primeira leitura de Stephen King. De alguma maneira cheguei até aqui passando ao largo de um dos autores contemporâneos mais populares em todo o mundo, e não foi por esnobismo. Ainda assim, paradoxalmente, conheço bem um número razoável de suas obras, e isto graças às adaptações audiovisuais mais (Louca Obsessão) ou menos (Christine – O Carro Assassino) bem-sucedidas, que me possibilitaram ganhar certa familiaridade com sua escrita antes de, de fato, tê-lo lido.

Para estrear, decidi pegar justamente aquela que talvez seja sua única não-ficção, traduzida para o português em bonita edição da Suma das Letras. Logo na primeira página, o senhor King nos avisa: “Isto não é uma autobiografia. É, na verdade, uma espécie de curriculum vitae, minha tentativa de mostrar como se forma um escritor” (p. 19). Nas duzentas e tantas páginas que se seguem, o sentido da escrita é sempre o mesmo, oferecendo uma obra que não servirá aos fãs curiosos por destrinchar sua intimidade ou por saber das polêmicas, como o vício em álcool e drogas. Todos esses assuntos são tocados superficial e esparsamente. Mas em cada linha, o foco se volta para aqueles genuinamente interessados pelo processo de escrita e humildes o suficiente para dar atenção a alguém que já vendeu mais de 350 milhões de livros1 ao redor do mundo, a despeito da implicância de alguns em relação ao gênero e estilo de suas obras. Leia mais

  1. Fonte: Wikipedia.com (em inglês).

Crítica: “Dívida de Honra” – Mulheres no Velho Oeste

Ao me deparar com o faroeste dirigido e estrelado por Tommy Lee Jones, confesso que de início senti certo desânimo e sono, e é a isso que se pode creditar o atraso desta crítica, escrita cerca de um mês depois da estreia do filme no Brasil, e a seu fraco desempenho de bilheteria, tendo rendido mundialmente cerca de U$ 2,5 milhões diante de um orçamento estimado em U$ 16 milhões1. Mas vamos combinar: sabemos que o ator não é muito afeito à vivacidade, sua própria carreira foi construída em torno dessa persona sisuda e de pouca paciência, em filmes como O Fugitivo (1993) e Onde os Fracos Não Têm Vez (2007). Credita-se a ele, inclusive, certa confissão de não se achar dotado de nenhum senso de humor e, por isso, não achar graça em nada. Assim, fica um pouco difícil pensar um momento adequado para assistir a esse filme (domingo à tarde nem pensar!) sem correr o risco de cochilar nos primeiros minutos.

Porém, pensando mais a fundo, lembramos que muitas vezes ele parece ter se esforçado em tentar nos surpreender, mesmo que incorporando um histriônico Harvey Dent/Duas Caras no ruim Batman Eternamente (1995) ou, mais recente, fazendo a insossa comediazinha romântica Um Divã para Dois (2012), com Meryl Streep.

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  1. Fonte: Imdb.

“A literatura para mim nasce do incômodo” – entrevista com Flávio Izhaki

Foto: Fábio Motta/Estadão

Morador do bairro de Laranjeiras, Zona Sul do Rio de Janeiro, o jornalista e escritor Flávio Izhaki foi lançado no mercado editorial brasileiro como uma das novas promessas da literatura contemporânea, durante o final dos anos 2000. De lá pra cá, publicou a novela De cabeça baixa (Guarda-chuva, 2008) e o romance Amanhã não tem ninguém (Rocco, 2013), além de contemplar algumas antologias de contos, realizadas no país e no exterior.

Elogiado pela crítica, o escritor carioca não se deslumbra com a grande recepção dada para os seus dois primeiros trabalhos como romancista, principalmente ao último, citado como um dos melhores romances brasileiros do ano, pelos jornais O Globo e O Estado de São Paulo. E aponta em entrevista exclusiva para o Posfácio: “No ato da escrita não importa as eventuais críticas positivas de um trabalho anterior. Quando se começa um novo livro, zera tudo, até porque o autor não escreve para a crítica. Pelo menos não deveria.”

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“Viva a Música!”: urgência e vazio

Andrés Caicedo nasceu em Cali, na Colômbia, em 1951, e se matou na mesma cidade em março de 1977. Foi dramaturgo, organizador de cineclubes e escritor. Com seu suicídio prematuro, sua figura marginal e uma literatura extremamente fincada nas vozes da rua, Caicedo é visto como o “inimigo de Macondo”, a principal figura de uma corrente diletante, daqueles que se oporiam aos pilares sagrados da cultura colombiana.

Sua prosa é realmente oposta à de García Márquez: Viva a música! é um livro profundamente arraigado em seu tempo, orgulhosamente produto das festas, dos shows e da juventude hippie colombiana. Não há aqui qualquer pretensão à universalidade ou a deixar uma marca no tempo. Caicedo não é um aspirante a Nobel, ele é um retratista de sua época, e isso é ao mesmo tempo seu ponto forte e seu maior defeito.

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#leiascifi2015 – A mão esquerda da escuridao #4

Pela primeira vez em nosso clube de leitura saímos do planeta1. Já estava na hora, não?

Se com a obra de China Miéville cogitamos estar lendo uma narrativa com seres alienígenas – afinal, os poderes da Brecha eram originários de outro planeta? –, dessa vez nos identificamos com o alien Genly Ai, um terráqueo em missão extraplanetária. Da mesma forma que ele estranha Inverno, apesar de ter estudado muito a respeito do lugar antes da viagem, os habitantes de lá não o entendem muito bem – nós seríamos aberrações (ou “Pervertidos”) em Gethen.

Há uma fragilidade nele. É todo desprotegido, exposto, vulnerável, inclusive seu órgão sexual, que tem de carregar sempre do lado de fora do corpo; (…) (p. 220)

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  1. Apenas “em nosso clube de leitura”: nas leituras pessoais já tinha explorado o espaço com Andy Weir e seu Perdido em Marte, no comecinho do ano.

E Mário saiu do armário

18 de junho de 2015: o dia em que Mário de Andrade saiu (ou melhor, foi tirado) do armário. E daí? Saiu ao público a chamada “carta secreta” de Mário para Manuel Bandeira – ou Manu, seu apelido –, que até hoje se encontrava escondida na Fundação Casa de Rui Barbosa, a pedido da família, pelo que dizem. Após certa movimentação judicial, iniciada por um jornalista, com base na Lei de Acesso à Informação, o texto foi finalmente revelado. Não é só um texto nem uma carta, mas também um documento (histórico) e – por que não? – um texto de Mário de Andrade, com seu estilo epistolar todo especial. E bonito, claro.

E daí? A carta, como todos esperavam – porque os boatos sempre chegam cedo –, realmente trata da homossexualidade do escritor. Sim, bem assim, direto ao ponto. Não se trata mais de um dos “indícios” sempre apontados pela crítica a partir da sua correspondência e também da sua literatura, indícios esses que agora se tornam automaticamente parte de uma estrutura toda coerente para o leitor. Nunca mais leremos nada seu do mesmo jeito. O que para alguns era só um boato é agora fato. As descrições dos corpos dos indígenas (homens) e da “flor inserida no…” de outro índio em O turista aprendiz podem ter todo um outro significado a partir de hoje. Mário é, finalmente, um escritor gay. Mas e daí? Essa é a questão. No fundo, nada muda, mas também tudo muda.

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#leiascifi2015 – A mão esquerda da escuridao #2 e #3

(Este texto continua a discussão de A mão esquerda da escuridão e aborda os capítulos 6 a 15. Leia também a Parte #1.)

62 palavras para a neve

Ler A mão esquerda da escuridão me faz pensar que todo livro deveria vir acompanhado de uma bibliografia. Os romances principalmente. Uma longa lista de livros que, uma vez estudada, permitiria refazer passo a passo o pensamento do autor na construção da história. Haveria, por exemplo, podemos imaginar, um “Manual astronômico dos planetas possíveis”, pelo qual chegaríamos a confirmar o cálculo de que um decréscimo de 8% na irradiação solar em Gethen levaria as calotas polares a cobrir todo o planeta.

(O projeto obviamente esbarraria na dificuldade de acompanhar a formação de cada pronome e de cada artigo na história – cf. Pierre Menard, autor do Quixote.)

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#leiascifi2015 – A mão esquerda da escuridão #1

Olha eu aqui de novo!

Já tive a oportunidade de comentar sobre esse livro de Ursula K. Le Guin, destacando que mesmo as suas 292 páginas não davam conta do tamanho e da profundidade de sua história. E se nem a obra dá conta de si mesma, o que dirá de um mero texto. Por isso, o alto comando posfaciano decidiu colocá-lo na ciranda de leituras coletivas que estamos realizando desde o começo do ano sob o selo #leiascifi2015. O esquema vocês já devem conhecer: a cada semana, um trecho do livro será discutido por um dos nossos autores, enquanto os comentários dos leitores enriquecem o debate e nós nos preparamos para o encontro final, pessoal e intransferível, assim como já aconteceu com O homem do castelo alto (Phillip K. Dick) e A cidade & a cidade (China Miéville) e que pode ser visto nessas fotos.

A parte que me cabe aqui, à guisa de introdução, vai mais ou menos até a página 75, fim do quinto capítulo, onde boa parte da trama política da história é desenvolvida. Como já tive oportunidade de dizer lá na outra crítica (essa frase talvez se repita ao longo desse texto), a trama da A mão esquerda… se divide em duas grandes partes, sendo a primeira delas mais política e a segunda mais antropológica, em que o universo da história é reduzido a fim de se explorar os detalhes da interação entre os dois protagonistas. Nessa primeira parte, porém, nosso personagem central, Genly Ai, uma espécie de diplomata enviado pelo Ekumen a fim de arregimentar o planeta Inverno (“Gethen”, no idioma “nativo”) a essa liga interplanetária, acaba de pousar em Karhide, o país mais populoso dessa terra inóspita.

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Cartas de Babel

Como todo ser humano mais ou menos razoável, de tempos em tempos eu tenho dúvidas a respeito daquilo que faço. Por vezes me pego questionando pra que passar tanto tempo debruçado sobre textos que – possivelmente – não interessam ninguém. Afinal, pra que me dedicar tanto a poetas e escritores de países que a maioria das pessoas só acha num mapa com certa dificuldade, cujo idioma parece mais um amontoado de consoantes – isso quando lembra alguma coisa meramente inteligível.

Mas, como qualquer ser humano mais ou menos razoável, de tempos em tempos eu tenho certeza de que isso é a melhor coisa que eu podia fazer pelo mundo – que alguém, com certeza, vai ler aquilo e vai ter uma epifania. Ou que, pelo menos, alguém vai querer me dar uns bons trocados pelo tempo passado derretendo o cérebro contando sílabas poéticas e folheando o dicionário até criar bolhas nos dedos.

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#leiascifi2015 – A cidade & a cidade #3 e #4

Aos que esperavam corpo mole posfaciano e ganhar uma semaninha de descanso (“ah, se não teve texto na semana passada, eu posso protelar um pouquinho essa leitura”) lamento informar, mas aqui não é assim. Se quiser dormir no meio da palestra sobre “estratégia, em grego strateegia, em latim strategi, em francês stratégie”, vai acordar com um belo dum incentivo pra manter os olhos pregados. Só não será granada destravada: é texto duplo mesmo – falarei tanto sobre os capítulos 14-21 (semana 3) quanto a respeito dos 22-29 (semana 4).

Não nego que isso seja bom no caso de A cidade & a cidade: afinal, quem conseguiria parar de ler ao final do capítulo 21, apenas para esperar os coleguinhas comentarem? Eu mesmo, quando fui ler, foi de uma vez só.

Mas me adianto.

Semana #3 – A revelação (Ou “Como inserir novos fatos sem provocar indignação”)

Gigio foi mais do que sabido1 quando inventou uma apostila para a escola de roteiristas de histórias de detetive. Quem viu a lista de tópicos e leu o livro nem imagina que o texto foi escrito sem o resenhista dar uma olhadinha no final do livro.

A entrada de Borlú em Ul Qoma é a ocasião perfeita para não apenas vermos novos personagens (Dhatt, Yolanda, Bowden, Aikam, Jaris) e descobrirmos em que estão metidos, mas também para o narrador da história ampliar o olhar, podendo finalmente encarar a cidade que era obrigado a desver na primeira parte do romance. A mudança nos põe no lugar do inspetor: não bastasse a dificuldade de imaginar como deveria ser ignorar tudo que não fosse Besźel, imagina não poder mais ver tudo que lhe era costumeiro só porque você está em outra cidade? Não sei como ficaria num filme, mas uma hora eu comecei a “ver” claramente como seria a situação.

Ficamos sabendo mais sobre a relação entre as duas cidades (questões políticas e sociais) e sobre o livro Entre a cidade e a cidade (praticamente um pedido de comparação do China com o PKD), que parece indicar a causa da morte de Mahalia e do desaparecimento de Yolanda: a possibilidade de existência de uma terceira cidade – Orciny –, em guerra contra a Brecha. Imagina uma cidade cujos habitantes fariam de tudo para permanecerem escondidos?

Borlú não sabe no que acreditar, mas toma a decisão de salvar Yolanda e Bowden levando-os para o seu território quando… tiros.

Semana #4.1 – A perseguição (Ou “O que fazer para criar a sua própria cena de correria louca”)

E as definições de “perseguição” foram atualizadas. Imagina ter de perseguir alguém por uma cidade (ainda) estranha enquanto se esforça para não criar uma brecha? Borlú pensa que foi bem-sucedido até o momento em que “– Brecha – e alguma coisa me tocou e eu caí na escuridão, para além do despertar e de toda consciência, ao som daquela palavra.”

Chegamos naquela parte do tabuleiro em que somos obrigados a voltar uma casa, antes da próxima perseguição. Mas voltamos de bom grado ao tópico “A revelação”, pois Borlú nos leva escondidinhos a entender (?) melhor o que é a Brecha. E que coisa esquisita ela é – seus componentes se apoiam numa linha tênue entre o humano e o fantasmagórico. E que coisa linda é ver o mundo por meio dela: contemplar Besźel e Ul Qoma e tudo que há entre as cidades, sem precisar desver coisa alguma. Há algo de poesia nisso. Dá para entender as comparações com Borges.

Finalmente, somos levados, no penúltimo capítulo, à perseguição mais lenta e esquisita da história. Bowden, com um artefato-MacGuffin na mão, escapando de ser preso pelas forças policiais de ambos os lados por técnica e oficialmente não estar sob a jurisdição de nenhuma das cidades. Até que Borlú intervém e com isso sela seu destino e muda de emprego.

Semana #4.2 – O fim: (Ou “Juntando todas as pontas – ou não”)

Quando reclamei da falta de sabres de luz em O homem do castelo alto – aliás, o link para o vídeo está aqui –, não quis negar a importância de que uma obra não pareça ficção científica a fim de conquistar o leitor que ainda a vê com algum desdém. Temos aqui um livro que pode agradar ao leitor que gosta de uma boa trama policial, àquele que curte algo bem pensado política e sociologicamente – a relação entre as cidades é peculiar e estranha, mas, ao mesmo tempo, familiar a quem está atento aos jornais – e também ao cara que quer ver mundos e vidas diferentes dos nossos.

Eu não costumo ser o leitor do meio, mas fiquei satisfeitíssimo em todos os aspectos. Quero mais China na minha vida! E você? O que achou do final? Queria saber mais sobre a Brecha? Ou se decepcionou por Orciny não existir? Conta aí pra gente.

Nos vemos no próximo clube de leitura, lendo Ursula Le Guin em “A mão esquerda da escuridão”. :Até lá. )

  1. Aliás, é a segunda vez que escrevo sobre o livro do China logo após um texto brilhante do Gigio. Uma honra, mas espero que ninguém esteja comparando.

Crítica: ‘Mad Max: Fury Road’ – Who killed the world?

O primeiro filme da saga Mad Max data de 1979, uma produção australiana com menos de um milhão de dólares de orçamento, dirigida pelo estreante George Miller e estrelada por um desconhecido Mel Gibson. A produção era tão precária que de todo o elenco, só Max vestia roupas de couro legítimo, e os carros, tão logo passavam por batidas e capotamentos nas cenas de ação, eram submetidos a rápidos reparos e uma nova camada de tinta para servirem a outras cenas (em algumas sequências é realmente possível ver a tinta fresca se descolando das latarias). Ainda assim, nada disso impediu que o filme se transformasse imediatamente em um clássico, lançando seu protagonista, à época com 21 anos, à categoria de astro e inspirando duas continuações memoráveis. Rendendo mais de US$ 100 milhões ao redor do mundo, Mad Max passou décadas no topo da lista dos filmes mais rentáveis da história, até ser superado por A Bruxa de Blair em 19991.

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  1. Fonte: BOSCOV, Isabela. Mad Max. In: Cinemateca da Veja. Abril Coleções. São Paulo: 2008

Chamada para a leitura de “A mão esquerda da escuridão”

Em junho continuaremos o projeto #leiascifi2015 com a leitura de A mão esquerda da escuridão, da escritora norte-americana Ursula K. Le Guin. O livro é um jovem clássico da ficção científica, que se mantém atual apesar de contar quase cinquenta velinhas. No Brasil, foi publicado pela editora Aleph, com uma belíssima capa, e reeditado recentemente, com uma nova apresentação.

A discussão da leitura será dividida em quatro partes, do seguinte modo:

Semana 1 – de 1 a 7 de junho – Capítulos 1 a 5
Semana 2 – de 8 a 14 de junho – Capítulos 6 a 10
Semana 3 – de 15 a 21 de junho – Capítulos 11 a 15
Semana 4 – de 22 a 28 de junho – Capítulos 16 a 20

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