#leiascifi2015 – A mão esquerda da escuridão #1

Olha eu aqui de novo!

Já tive a oportunidade de comentar sobre esse livro de Ursula K. Le Guin, destacando que mesmo as suas 292 páginas não davam conta do tamanho e da profundidade de sua história. E se nem a obra dá conta de si mesma, o que dirá de um mero texto. Por isso, o alto comando posfaciano decidiu colocá-lo na ciranda de leituras coletivas que estamos realizando desde o começo do ano sob o selo #leiascifi2015. O esquema vocês já devem conhecer: a cada semana, um trecho do livro será discutido por um dos nossos autores, enquanto os comentários dos leitores enriquecem o debate e nós nos preparamos para o encontro final, pessoal e intransferível, assim como já aconteceu com O homem do castelo alto (Phillip K. Dick) e A cidade & a cidade (China Miéville) e que pode ser visto nessas fotos.

A parte que me cabe aqui, à guisa de introdução, vai mais ou menos até a página 75, fim do quinto capítulo, onde boa parte da trama política da história é desenvolvida. Como já tive oportunidade de dizer lá na outra crítica (essa frase talvez se repita ao longo desse texto), a trama da A mão esquerda… se divide em duas grandes partes, sendo a primeira delas mais política e a segunda mais antropológica, em que o universo da história é reduzido a fim de se explorar os detalhes da interação entre os dois protagonistas. Nessa primeira parte, porém, nosso personagem central, Genly Ai, uma espécie de diplomata enviado pelo Ekumen a fim de arregimentar o planeta Inverno (“Gethen”, no idioma “nativo”) a essa liga interplanetária, acaba de pousar em Karhide, o país mais populoso dessa terra inóspita.

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#leiascifi2015 – A cidade & a cidade #3 e #4

Aos que esperavam corpo mole posfaciano e ganhar uma semaninha de descanso (“ah, se não teve texto na semana passada, eu posso protelar um pouquinho essa leitura”) lamento informar, mas aqui não é assim. Se quiser dormir no meio da palestra sobre “estratégia, em grego strateegia, em latim strategi, em francês stratégie”, vai acordar com um belo dum incentivo pra manter os olhos pregados. Só não será granada destravada: é texto duplo mesmo – falarei tanto sobre os capítulos 14-21 (semana 3) quanto a respeito dos 22-29 (semana 4).

Não nego que isso seja bom no caso de A cidade & a cidade: afinal, quem conseguiria parar de ler ao final do capítulo 21, apenas para esperar os coleguinhas comentarem? Eu mesmo, quando fui ler, foi de uma vez só.

Mas me adianto.

Semana #3 – A revelação (Ou “Como inserir novos fatos sem provocar indignação”)

Gigio foi mais do que sabido1 quando inventou uma apostila para a escola de roteiristas de histórias de detetive. Quem viu a lista de tópicos e leu o livro nem imagina que o texto foi escrito sem o resenhista dar uma olhadinha no final do livro.

A entrada de Borlú em Ul Qoma é a ocasião perfeita para não apenas vermos novos personagens (Dhatt, Yolanda, Bowden, Aikam, Jaris) e descobrirmos em que estão metidos, mas também para o narrador da história ampliar o olhar, podendo finalmente encarar a cidade que era obrigado a desver na primeira parte do romance. A mudança nos põe no lugar do inspetor: não bastasse a dificuldade de imaginar como deveria ser ignorar tudo que não fosse Besźel, imagina não poder mais ver tudo que lhe era costumeiro só porque você está em outra cidade? Não sei como ficaria num filme, mas uma hora eu comecei a “ver” claramente como seria a situação.

Ficamos sabendo mais sobre a relação entre as duas cidades (questões políticas e sociais) e sobre o livro Entre a cidade e a cidade (praticamente um pedido de comparação do China com o PKD), que parece indicar a causa da morte de Mahalia e do desaparecimento de Yolanda: a possibilidade de existência de uma terceira cidade – Orciny –, em guerra contra a Brecha. Imagina uma cidade cujos habitantes fariam de tudo para permanecerem escondidos?

Borlú não sabe no que acreditar, mas toma a decisão de salvar Yolanda e Bowden levando-os para o seu território quando… tiros.

Semana #4.1 – A perseguição (Ou “O que fazer para criar a sua própria cena de correria louca”)

E as definições de “perseguição” foram atualizadas. Imagina ter de perseguir alguém por uma cidade (ainda) estranha enquanto se esforça para não criar uma brecha? Borlú pensa que foi bem-sucedido até o momento em que “– Brecha – e alguma coisa me tocou e eu caí na escuridão, para além do despertar e de toda consciência, ao som daquela palavra.”

Chegamos naquela parte do tabuleiro em que somos obrigados a voltar uma casa, antes da próxima perseguição. Mas voltamos de bom grado ao tópico “A revelação”, pois Borlú nos leva escondidinhos a entender (?) melhor o que é a Brecha. E que coisa esquisita ela é – seus componentes se apoiam numa linha tênue entre o humano e o fantasmagórico. E que coisa linda é ver o mundo por meio dela: contemplar Besźel e Ul Qoma e tudo que há entre as cidades, sem precisar desver coisa alguma. Há algo de poesia nisso. Dá para entender as comparações com Borges.

Finalmente, somos levados, no penúltimo capítulo, à perseguição mais lenta e esquisita da história. Bowden, com um artefato-MacGuffin na mão, escapando de ser preso pelas forças policiais de ambos os lados por técnica e oficialmente não estar sob a jurisdição de nenhuma das cidades. Até que Borlú intervém e com isso sela seu destino e muda de emprego.

Semana #4.2 – O fim: (Ou “Juntando todas as pontas – ou não”)

Quando reclamei da falta de sabres de luz em O homem do castelo alto – aliás, o link para o vídeo está aqui –, não quis negar a importância de que uma obra não pareça ficção científica a fim de conquistar o leitor que ainda a vê com algum desdém. Temos aqui um livro que pode agradar ao leitor que gosta de uma boa trama policial, àquele que curte algo bem pensado política e sociologicamente – a relação entre as cidades é peculiar e estranha, mas, ao mesmo tempo, familiar a quem está atento aos jornais – e também ao cara que quer ver mundos e vidas diferentes dos nossos.

Eu não costumo ser o leitor do meio, mas fiquei satisfeitíssimo em todos os aspectos. Quero mais China na minha vida! E você? O que achou do final? Queria saber mais sobre a Brecha? Ou se decepcionou por Orciny não existir? Conta aí pra gente.

Nos vemos no próximo clube de leitura, lendo Ursula Le Guin em “A mão esquerda da escuridão”. :Até lá. )

  1. Aliás, é a segunda vez que escrevo sobre o livro do China logo após um texto brilhante do Gigio. Uma honra, mas espero que ninguém esteja comparando.

Chamada para a leitura de “A mão esquerda da escuridão”

Em junho continuaremos o projeto #leiascifi2015 com a leitura de A mão esquerda da escuridão, da escritora norte-americana Ursula K. Le Guin. O livro é um jovem clássico da ficção científica, que se mantém atual apesar de contar quase cinquenta velinhas. No Brasil, foi publicado pela editora Aleph, com uma belíssima capa, e reeditado recentemente, com uma nova apresentação.

A discussão da leitura será dividida em quatro partes, do seguinte modo:

Semana 1 – de 1 a 7 de junho – Capítulos 1 a 5
Semana 2 – de 8 a 14 de junho – Capítulos 6 a 10
Semana 3 – de 15 a 21 de junho – Capítulos 11 a 15
Semana 4 – de 22 a 28 de junho – Capítulos 16 a 20

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#leiascifi2015 – A cidade & a cidade #2

Esta semana continuamos a discussão de A cidade e a cidade cobrindo os capítulos 7 a 13. Nessa parte do livro descobrimos que a morte de Mahalia Geary pode não ser um simples caso de brecha, e a investigação se estende para o território de Ul Qoma.

Exceto pela estranha participação dos pais de Mahalia (que talvez estejam ali para mostrar que a Brecha não é um delírio coletivo dos habitantes das duas cidades), esses capítulos se enquadram bem naquela fase das histórias policiais em que nossas suspeitas, como detetives-leitores, são lançadas de um lado ao outro, até que nada mais pareça fazer sentido. Faz parte do gênero: o mesmo sentimento pode ser experimentado durante uma temporada de True Detective, ou nos minutos intermediários de um episódio de CSI ou de Scooby-Doo! Mistério S/A.

Vamos imaginar que exista em algum lugar uma escola de roteiristas de histórias de detetive. A apostila desse curso apresentaria um índice sugestivo, com títulos e subtítulos mais ou menos assim:

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#LeiaSciFi2015 A Mão Esquerda da Escuridão

Abrir o livro de Ursula K. Le Guin, disponível para os brasileiros numa belíssima edição da Editora Aleph, é mergulhar num mundo fantástico muito maior do que 292 páginas poderiam dar conta. De certa forma, a história que temos diante de nós é tão complexa e multifacetada quanto as aventuras de Tolkien e as crônicas de C.S. Lewis, tão grandiosa quanto o universo expandido de Star Wars e as histórias pregressas de Game of Thrones.

Aos 85 anos, vencedora de cinco Locus, quatro Nebulas e dois Hugos, os principais prêmios da literatura fantástica americana, além de recentemente homenageada pelo National Book Award1, a autora é influência crucial para muitos autores que hoje em dia são até mais populares do que ela (de Salman Rushdie a William Gibson, passando por Neil Gaiman e até Hayao Miazaki). Você pode não ter lido nenhum livro da senhora Le Guin (ainda), como eu mesmo até pouco tempo nunca havia feito, mas se gosta dos gêneros de sci-fi e ficção certamente já cruzou com algo inspirado por ela ou criado em sua homenagem.

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  1. Vejam seu sensacional discurso de aceitação, com direito a críticas duras ao mercado editorial.

#leiascifi2015 – A cidade & a cidade #1

Às vezes não entendo o que há de errado comigo. Sim, eu me empolguei com a chamada para leitura escrita por Gigio1 e, sim, bons amigos já tinham me indicado esse escritor de nome estranho, mas o fato é que: procrastinei. Podia pôr a culpa na experiência do clube de leitura anterior – por mais que tenha gostado do PKD, não o amei como esperava2 –, mas o fato é: sou desses leitores que não “funcionam” muito bem em clubes de leitura. Leio muita coisa ao mesmo tempo3 e raramente dou prioridade à leitura coletiva.

Ao menos consigo admitir: errei feio, errei rude. Miéville é O cara. Leia mais

  1. Os textos do rapaz invariavelmente fazem isso comigo.
  2. Mas não desanimei por completo. Espero ler ao menos Ubik – parece mais a minha cara – e Realidades adaptadas – que reúne histórias que inspiraram filmes que me aproximaram de meu irmão.
  3. Nos últimos dias, li Tales from Other Suburbia e Lost & Found (leiam tudo que puderem desse Shaun Tan, sério), tudo de Saga (Brian K. Vaughan e Fiona Staples precisam lançar logo o volume 5!), Frank Einstein e o motor antimatéria, The Wicked + The Divine, comecei Aniquilação e O círculo (mesmo tendo lido a resenha da Camila), e retomei a leitura de A história secreta. Ufa.

O livro da gramática isralense

Aharon, o protagonista de O livro da gramática interior, tem doze anos e vive em Jerusalém. Aos doze anos, é como se o chão sob seus pés começasse a mudar, a tornar-se mais fluido, menos seguro. Todo o universo com que contou a infância inteira começa a ser destruído lentamente, minado pouco a pouco a partir do lado de dentro. Seria a história de qualquer adolescente – o problema é que o corpo de Aharon se recusa a crescer e dar a ele as ferramentas necessárias para existir nessa nova configuração das coisas.

Seus amigos começam a crescer, seguir em frente, adentrar conflitos mais complexos e entender aos poucos o mundo dos adultos, mas Aharon fica de fora. Sensível, ele absorve tudo que se passa a sua volta, mas é incapaz de processar, incapaz de entender, incapaz de aceitar a corrupção necessária para se crescer, justamente porque seu corpo permanece o de uma criança.

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Das indulgências com Kundera

Nas resenhas em que falei sobre livros de Milan Kundera, o tom elogioso sempre se sobressaiu na análise, e devo dizer que minhas experiências de leitura do escritor tcheco costumam ser prazerosas – embora não num sentido tradicional de prazer. O ângulo a partir do qual Kundera enxerga a vida, os homens e o mundo é bastante singular, e foca alguns aspectos da existência que o escritor trata de modo a desequilibrar certos sensos comuns, certas assumptions que, de tão banalizadas, tomamos como naturais e imutáveis. Daí seu interesse: proporcionar perspectivas novas para coisas antigas.

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#leiascifi2015 – O Homem do Castelo Alto #5

(Alerta aos leitores desavisados: este texto discute o final de O homem do castelo alto.)

Perguntei ao oráculo: o que devo dizer no Posfácio sobre os últimos capítulos do livro?

Ele respondeu com o primeiro hexagrama, O Criativo, com nove na primeira e na quinta posição. Um resultado auspicioso.

Dragão voando nos céus.
É favorável ver o grande homem.

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Chamada para a leitura de “A cidade & a cidade”

Convocação a todos os leitores do #leiascifi2015! Como anunciado pelo Tuca semana passada, o próximo livro que discutiremos por aqui será A cidade &a cidade, de China Miéville, publicado no Brasil pela Boitempo no final do ano passado. Há ainda bastante tempo para quem quiser compartilhar a leitura conosco ao longo de todo o mês de maio – começamos oficialmente no dia 4. Então pegue na biblioteca, empreste, alugue, compre… não importa, leia conosco. Leia mais

Escolha a sua catástrofe

O primeiro livro de Isaac Asimov que conheci não fazia parte da Trilogia da Fundação nem das coletâneas de contos sobre os robôs e seu altruísmo positrônico. Antes de tudo veio uma obra de não ficção chamada Escolha a catástrofe, que encontrei aos treze anos num canto da biblioteca da escola. Foi aí que aprendi coisas muito edificantes: que a Lua se afasta gradualmente da Terra, que os raios cósmicos alteram o DNA e que um miniburaco negro poderia silenciosamente se alojar no centro do Sol, de onde consumiria aos poucos a nossa estrela.

A fim de perturbar a mente dos jovens leitores de forma organizada, Asimov dividiu as possíveis catástrofes em cinco categorias. As de primeiro grau seriam as de maior proporção, porém de mais longo prazo, como a inevitável morte térmica do universo, enquanto as de quarto ou quinto grau seriam mais iminentes, porém mais modestas, implicando apenas na extinção da espécie humana ou no colapso da civilização atual, respectivamente.

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#leiascifi2015 – O Homem do Castelo Alto #4

A essa altura do campeonato é quase insano pensar que alguém tenha parado a leitura na página 210 para conversar livremente no clube de leitura virtual. Falta tão pouquinho pro final que é fácil o dedo dar aquela escorregada malandra: sem querer, você finda lendo uma das últimas páginas antes de perceber o erro. Eu poderia simplesmente assumir que ninguém reprimiu a curiosidade – tampouco a vontade de marcar mais um livro como “read” no Goodreads – e todos já leram até o fim.

De qualquer forma, isso não aconteceu por aqui – passo nas mãos o mesmo breu que os ginastas usam nas competições e nem cheguei a olhar para a página 211. Ou seja, sou incapaz de dar spoilers acerca do que se sucede nas páginas seguintes. Leia mais